16/10/2017 – GE sobre texto “O Público e o Privado” de Flavia Biroli

O encontro de hoje foi dedicado ao Grupo de Estudos sobre o texto “O Público e o Privado” de Flavia Biroli. Vários pontos do texto foram levantados e geraram discussão sobre temas mais amplos, mostrando a complexidade do tema.

 

Em relação à dualidade esfera pública e privada:

  • Flavia aponta a necessidade de expor a história não contada da CONSTRUÇÃO DA ESFERA PÚBLICA a partir da POSIÇÃO DAS MULHERES. Segundo a autora, a política das relações de poder começa na VIDA COTIDIANA.
  • De acordo com o conceito de que esfera pública baseia-se na RAZÃO e na IMPESSOALIDADE e esfera privada corresponde às relações de caráter PESSOAL e ÍNTIMO, a domesticidade feminina foi cultivada culturalmente para manter esta dualidade. Tal domesticidade foi cunhada de modo a parecer um TRAÇO NATURAL E FISIOLÓGICO das mulheres, frente ao qual qualquer outra característica era considerada DESVIO DE COMPORTAMENTO.
  • A esfera privada foi “protegida” da intervenção do Estado, preservando relações autoritárias que limitaram a autonomia das mulheres. A garantia de privacidade para o domínio familiar e doméstico garantiu a dominação masculina e bloqueou a proteção a indivíduos mais vulneráveis nas relações de poder correntes – como mulheres e crianças. A esfera privada é vista como lugar onde a justiça comum não se aplica porque envolve RELAÇÕES DE AFETO.
  • Mas é a dominação da mulher na esfera privada que garante o sucesso do homem na esfera pública. Sem falar na AUSÊNCIA DE CIDADANIA E DE DIREITO À INTEGRIDADE FÍSICA que sofrem mulheres expostas a abusos e estupros no casamento. Seus corpos não lhes pertencem: são passados da dominação paterna à do marido na cerimônia do matrimônio.

 

Em relação aos horizontes limitados:

  • “Relações mais justas na vida doméstica permitiriam ampliar o horizonte de possibilidades das mulheres, com impacto em suas trajetórias pessoais e formas de participação na sociedade”. Nas relações familiares há diferença na divisão das responsabilidades sobre a vida doméstica (pesando mais sobre as meninas) e dos estímulos que favorecem maior exercício da autonomia (mais dirigidos aos meninos).
  • A falta de mulheres na vida pública reduz a possibilidade de que se discutam e avancem em questões como CUIDADO COM AS CRIANÇAS, CUIDADO COM IDOSOS, VIOLÊNCIA E DOMINAÇÃO DE GÊNERO.
  • As barreiras para que mulheres exerçam trabalho remunerado fora de casa são associadas ao TEMPO QUE AS MESMAS GASTAM NA ESFERA DOMÉSTICA (Didier Marc Garin contou, quando esteve no Brasil, que na França as mulheres recebem 25% menos que homens na mesma função por sua “suposta” menor dedicação à empresa devido aos afazeres doméstico e familiares. Ainda que isso não se comprove na prática).
  • A mesma justificativa permite aos homens ter mais acesso a trabalhos de grande dedicação e responsabilidade na empresa, pois SUPÕE-SE QUE SEJAM LIVRES PARA ATENDER A EXIGÊNCIAS PROFISSIONAIS.
  • As expectativas sociais conduzem a desenvolvimentos de habilidades diferenciadas para homens e mulheres. Mulheres são orientadas para a CONQUISTA DO CASAMENTO (e há todo um mercado de consumo para que disputem o parceiro que lhes garantirá suporte econômico).

 

Em relação ao mundo corporativo:

  • “O mundo do trabalho se estruturou com o pressuposto de que os ‘trabalhadores’ têm esposas em casa”. O controle dos recursos ficou a cargo dos homens, ainda que o resultado de seu trabalho conte com a dedicação das mulheres.
  • Por outro lado, a atuação das mulheres na prática do cuidado é vista como formadora de uma ÉTICA DISTINTA (isso pode ser visto nas urnas, quando vota-se em mulher POR SEU CARÁTER e não por sua CAPACIDADE DE GESTÃO).
  • Algumas feministas apontam também a desvalorização do trabalho doméstico frente ao assalariado, o que nem sempre é real. Muitas mulheres da classe trabalhadora são exploradas, recebem menos que o salário mínimo e poucos benefícios. NEM SEMPRE TRABALHAR FORA DE CASA É SINÔNIMO DE PROJEÇÃO E INDEPENDÊNCIA. “A FAMÍLIA PODE SER UM REFÚGIO PARA INDIVÍDUOS QUE SOFREM DISCRIMINAÇÃO NA SOCIEDADE MAIS AMPLA”.

 

Em relação às privacidades seletivas:

  • Privacidades tem sentidos diferentes conforme a posição do indivíduo nas relações de poder:

HOMENS BRANCOS têm privacidade no espaço público (escritórios com portas fechadas e controle sobre quem tem acesso)

MULHERES BRANCAS DE CLASSE MÉDIA podem usar tempo livre – já que outras mulheres (pobres) fazem o serviço doméstico para elas – para atuar na esfera pública. Os eletrodomésticos e maquinário também ajudam as mulheres de classe média

  • Na esfera pública, privacidade pode depender de um menor grau de privatização, ou, da SOCIALIZAÇÃO DAS TAREFAS DOMÉSTICAS (como pensado por Lênin na Revolução).
  • Há um risco na possibilidade de intervenção estatal na esfera privada: o da intervenção em outras formas de relacionamento familiar – LGBT, por exemplo.
  • Mesmo o direito ao aborto é visto por algumas feministas como maléfico por permitir aos homens se livrar das consequências reprodutivas da relação sexual.

 

ALGUMAS CONCLUSÕES:

“A pluralidade democrática depende da garantia do espaço para o florescimento de identidades baseadas em crenças e práticas distintas”

“A garantia da privacidade depende da crítica à dualidade convencional entre o público e o privado” e da crítica “às desigualdades de gênero a que esta realidade tem correspondido”.

Sugestão de autoras para leitura:

  • Valerie Solanas (Scum manifesto)
  • Julie Falket
  • Monique Wittig (Amazonas)
  • Helleieth Saffioti (livro “Gênero, Patriarcado, Violência”)

 

 

 

 

GE – Grupo de Estudos (30/05/2016)

“As Cidadanias Mutiladas”, de Milton Santos, e “Mídia, Racismos e Representações do Outro: ligeiras reflexões em torno da imagem da mulher negra”, de Rosane Borges

 

Em “As Cidadanias Mutiladas”, Milton Santos inicia definindo o termo cidadão como “indivíduo dotado de direitos que lhe permitem não só se defrontar com o estado, mas afrontar o estado”. Um indivíduo completo, que sabe quais poderiam ser os seus direitos, que compreende o mundo em que transita.

Segundo Santos, a classe média no Brasil não é formada por cidadãos, já que não se preocupa em saber quais são seus direitos, e sim quais são os privilégios de que pode usufruir. É porque esta classe goza de privilégios que os demais não podem ter direitos. Porque uma classe não quer ser cidadã, as demais não podem sê-lo.

As mutilações da cidadania são várias, tais como:

  • Negação a oportunidades de trabalho
  • Desigualdade na remuneração
  • Demarcação da localização das moradias
  • Acesso restrito à circulação
  • Acesso restrito à educação
  • Acesso restrito à saúde, pela falta de “pistolões” que proporcionem o atendimento de qualidade em sistemas públicos de saúde
  • Ausência de direito ao uso irrestrito das novas tecnologias
  • Desigualdade de tratamento por parte da polícia e da justiça

Santos elenca também 3 dados centrais para entender o racismo:

  1. Corporalidade: dados objetivos

Este dado inclui a mobilidade e a capacidade de realizar coisas. Pensa o uso racional do território e dos recursos públicos. No Brasil, algumas empresas e algumas pessoas organizam as cidades para proveito próprio. Há um corporativismo que utiliza os recursos públicos e relega ao restante da população o resíduo do orçamento.

  1. Individualidade: dados subjetivos

A questão dos negros é mais grave porque é cumulativa, vem de um sistema de escravidão baseado no darwinismo social. Algumas pessoas ou raças são consideradas inferiores na escala da sociedade mundial. Este dado afasta a população negra das demais minorias, como as mulheres (que lutam de dentro da sociedade e, portanto, conseguem alguns avanços) e os índios (considerados parte da natureza que deve ser preservada). Os negros são considerados parte da produção. Por isso considera-se normal os milhões de pobres e desempregados no país, porque são considerados seres inferiores.

  1. Cidadania: dados políticos

Após 3 séculos de Iluminismo, o centro do universo deixa de ser o homem para ser o dinheiro. A democracia de mercado impõe competitividade, elogio à técnica. O homem é residual. Neste contexto “os mais fracos não hão de esperar nada e os negros muito menos”. São todos vítimas da violência do dinheiro e da informação. Há um assassinato cotidiano da ideia de nação.

Santos, porém, crê que a esperança possa vir desta globalização, que atua também de maneira cruel em relação aos considerados mais fracos. A migração constante poderia enriquecer o discurso, pensando novas formas de ver o mundo a partir das diferentes experiências. Segundo Santos, “os americanos propuseram ao mundo cheirar igual, com os famosos desodorantes. Não conseguiram”.

O autor aponta o difícil acesso às modernidades pelos mais pobres como um fator positivo, no sentido de que estes têm a real noção do “seu ser no mundo”, do seu “existir na formação social nacional”. [Neste sentido, Nicolau Sevcenko dizia que a América Latina tinha uma posição privilegiada de ver o mundo por um olhar periférico, não de dentro do olho do furacão, mas de fora da neurose coletiva. Ele dizia que o mundo estava no looping da montanha russa, de cabeça para baixo e em condições de repensar a história replanejando o futuro].

O texto de Santos propõe aos negros conhecer não só o seu campo, mas também o do outro. Conhecer, sobretudo, o “campo comum em que vivem todos os brasileiros”, para buscar lugares mais importantes dentro da sociedade. Para além dos guetos. Termina dizendo que “pedir aos negros que aceitem o discurso oficial e esperem tranquilos a evolução normal da sociedade é condená-los a esperar outro século”. Impossível.

 

Por sua vez, no texto Mídia, Racismos e Representações do Outro: ligeiras reflexões em torno da imagem da mulher negra”, Rosane Borges aborda a maneira como a mídia interfere na maneira dos indivíduos enxergarem-se uns aos outros, contribuindo na formação do imaginário coletivo. Ela aponta a importância desta influência, uma vez que a sociedade tende, por si só, a estabelecer juízos de valor a partir de determinados critérios como melhor/pior, belo/feio, normal/desviante, e assim por diante.

Em relação aos negros, a autora observa que já existe uma crítica ao modo de representa-los de maneira uniformizada e preconceituosa. Pesquisadores já reclamam uma postura pluralista e voltada à diversidade, capaz de derrubar os habituais estigmas de racismo. É preciso apenas ouví-los.

Rosane cita uma amostragem do modus operandi da sociedade julgar seus pares a partir de determinados símbolos:

  • Limusines negras são relacionadas a seres poderosos, geralmente ligados à política ou à economia.
  • Livros atrás de entrevistados significa que os mesos são intelectuais.
  • Mulheres chorando remetem-se a mães lamentando por algo com os filhos.
  • Nomes omitidos e identidades ocultas falam de pessoas exiladas, desterritorializadas.
  • Imagens e vozes distorcidas tem a ver com o terceiro mundo, os estranhos, os “outros”.

Seguindo estes modelos, espera-se que o mundo continue igual, conhecido, sem grandes surpresas que possam abalar as estruturas de poder. A autora cita a prática do “controle de rostos”, que facilita a escolha de quem pode entrar nos estabelecimentos privados, adquirir bens, habitar e trabalhar, sem causar danos aos proprietários. A mídia serve a estes propósitos, repetindo à exaustão as regras do aceitável, do considerado normal. Neste contexto o homem e a mulher negra são categorizados segundo critérios desumanizantes.

A postura da mídia é, majoritariamente, conservadora dos valores coloniais e eurocêntricos. As imagens do passado revestem-se de novas roupagens para assegurar a perpetuação dos privilégios de classe e raça. Em relação às mulheres negras, o modelo ainda lembra a Vênus de Hotentote, com formas protuberantes que aludem a uma hipersexualidade. De um lado a beleza sensual e de outro a suposta falta de controle sobre os instintos, a mulher negra serve de ícone para propagandas como a da cerveja Devassa, cujo slogam declara: “é pelo corpo que se conhece a negra”.

Autoras como Rosane Borges e Bel Hooks concordam em que o sistema patriarcal e machista dos tempos coloniais subjugava as mulheres negras considerando-as objetos de seus senhores brancos. Este infeliz julgamento permanece como pano de fundo para que se mantenha um julgamento estereotipado acerca das mesmas, ainda que há muito elas tenham ingressado no mundo intelectual, artístico e profissional de todas as áreas.

Como então quebrar este círculo vicioso e libertar a mulher negra da imagem da Vênus de 1789, exibida como objeto de atração e assustamento? Rosane crê que a saída esteja na comunicação contraintuitiva, na qual teorias são fundamentadas em estudos das diferenças, da diversidade, da pluralidade, rejeitando modelos cristalizados. Só assim a verdadeira imagem da mulher negra pode ser resgatada, devolvendo-a ao lugar digno que todo cidadão merece.

Sobre os autores

Milton Santos nasceu na região da Chapada Diamantina, filho de pais professores primários. Aos dez anos ingressou no Instituto Baiano de Ensino de Salvador, passando em primeiro lugar. Em 1948, formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia. Desde a juventude atuou na política estudantil, criando jornais e participando da União Nacional dos Estudantes, da qual chegou a ser vice-presidente. Em 1956, foi convidado a realizar seu doutorado em Estrasburgo. Em 1960, já de volta, publicou o estudo “Mariana em Preto e Branco”. Com o golpe militar de 1964, foi preso e exilado. Neste período atuou como professor na Universidade de Toulouse, na França. Retornou ao Brasil em 1977, ingressando na USP como docente em 1984. Faleceu aos 75 anos, em 2001.

Rosane Borges é jornalista, pós-doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, integrante do grupo de pesquisa Midiato (ECA-USP) e professora do Curso de Especialização do Celacc (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação da USP). Foi coordenadora nacional do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra (CNIRC) da Fundação Palmares, órgão do Ministério da Cultura, e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde integrou o corpo docente do mestrado em Comunicação Visual. Coordenou a Revista Nguzu (NEAA-UEL) e escreve regularmente nos portais de notícias “Obsevatório da Imprensa”, “Geledés” e “Áfricas”. Integra a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra (OAB-SP), a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-SP) e o Conselho Nacional de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (CNPIR) da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial). Possui diversos livros publicados, entre eles: Jornal: da forma ao discurso (2002), Rádio: a arte de falar e ouvir (2003) e Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004).

Ata da 12ª Reunião – GE – 30/05/2016

Pauta

  • Este encontro dedicou-se à preparação da entrevista com a Prof.ª Dra. Rosane Borges, marcada para o dia 06/06/2016. Foram escolhidos 2 textos para discussão: “As Cidadanias Mutiladas”, de Milton Santos, e “Mídia, Racismos e Representação do Outro: ligeiras reflexões em torno da imagem da mulher negra”, da própria Rosane Borges. O primeiro foi citado por ela no seminário O Negro no Brasil, ocorrido dia 12/05/2016. Sua escolha se deve, além disso, ao fato de que Milton Santos introduz a questão do racismo num plano mais abrangente, possibilitando um melhor entendimento da situação e representação da mulher negra, abordadas por Rosane Borges em seu artigo.
  • A discussão dos 2 textos abriu espaço para falarmos sobre um acontecimento trágico que marcou a semana anterior ao encontro, que foi o estupro coletivo de uma garota de 16 anos no Rio de Janeiro. Foi observado que este tipo de violência contra a mulher decorre de um comportamento prepotente, autoritário e darwinista como os apontados nos textos lidos, que supõe que alguns seres humanos são superiores a outros e, portanto, tem mais direitos. Estes direitos compreenderiam o uso de uns pelos outros, sem qualquer tipo de culpa ou consequência.

 

GE – Texto de Milton Santos “As Cidadanias Mutiladas”

  • Eliana Monteiro da Silva apresentou este texto a partir de 3 pontos considerados importantes para o autor: corporalidade, individualidade e cidadania. A corporalidade teria dados objetivos quanto à mobilidade dos cidadãos e sua capacidade (ou restrição da mesma) de realizar coisas. A individualidade teria dados subjetivos e caracterizaria a comunidade negra de modo particular e diferente das outras minorias, pelo fato de que as outras reclamam direitos de um lugar que está inserido na sociedade, enquanto os negros estão excluídos da mesma. Já a cidadania se basearia em dados políticos, que dependem de uma democracia voltada para os homens e não para o mercado.
  • Segundo Milton Santos, um cidadão é um indivíduo completo que, se não consegue exercer seus direitos, sabe quais são eles e tem condições de reivindica-los. No Brasil, o autor constata que estas cidadanias são mutiladas porque há uma situação de colonialismo que busca manter os privilégios da classe média soterrando os direitos dos demais. O próprio território e seus recursos naturais são manipulados, quase totalmente, por poucas pessoas e/ou empresas. Ao restante da população disponibiliza-se o resíduo do orçamento da nação.

 

Texto de Rosane Borges “Mídia, Racismos e Representação do Outro: ligeiras reflexões em torno da imagem da mulher negra”

  • O segundo texto a ser discutido versou sobre a imagem da mulher negra e sua associação a estereótipos de hipersexualidade. Segundo a autora, a mídia reproduz um discurso preconceituoso e racista sobre a mulher negra, tornando-se formadora e mantenedora desta opinião. Tal imagem teria origem na constituição corporal de Sarah Baartman, uma mulher negra nascida em 1789, cujas nádegas eram proeminentes a ponto de chamar atenção. Esta “desproporção” seria exibida como algo monstruoso e exótico, confirmando a “normalidade” e perfeição do homem e mulher europeus.
  • As medidas ampliadas de Sarah foram associadas a um suposto apetite sexual exagerado, de onde vem o estereótipo da mulher negra devassa. Propagandas de cerveja, entre outras, usam estes signos do imaginário construído ao longo dos séculos para criar um lugar para as mulheres negras, qual seja nos desfiles de carnaval, nas rodas de samba, etc.
  • Rosane termina apostando na comunicação contraintuitiva pode quebrar padrões e desconstruir estigmas pré-estabelecidos. Aponta também a importância de estudos atentos à diversidade, ao racismo e à alteridade, para transformar nossos horizontes de representação.

 

Planejamento da próxima reunião – série Visões – dia 06/06/2016

  • Entrevista/conversa com Rosane Borges.

 

Ata da 7ª Reunião – GE – 25/04/2016

Pauta

  • Sobre visita ao Núcleo Consciência Negra, que foi assunto do último encontro: Mariana ficou responsável por entrar em contato com membros do núcleo para programar uma visita da Sonora. Entrou em contato com o coletivo Opá Negra, voltado a questões sobre racismo na ECA USP. O coletivo não é feminista mas tem pouquíssimos homens, o que acaba sendo um precedente para o surgimento de discussões de gênero. Ana Paula Marcelino, membro do Opá Negra, convidou xs membrxs da Sonora para participar da 3ª edição da USPRETA, em maio, que tem como tema a produção da mulher negra no espaço da arte.
  • Sara trouxe informações sobre o grupo de mulheres de que participa no Vocacional, que tem vários eventos focados no gênero.

GE – Texto de Bel Hooks “De mãos dadas com minha irmã”, do livro Ensinando a Transgredir

  • Davi Donato expos o texto a partir de 3 momentos: escravidão, emancipação e feminismo. Ele observa que o texto não tem formato muito acadêmico, tem poucas citações e fontes, principalmente em relação a contextos históricos.
  • Em relação a esta questão, Antonilde Rosa, que havia sugerido a leitura deste texto, apontou que a escrita coloquial é uma estratégia de transgressão. Hooks usa uma linguagem acessível, sem se preocupar em se adequar a qualquer formato.
  • Hooks entende que a separação entre mulheres brancas e negras não diminuiu com o fim da escravidão, só ficou menos evidente. Ela inclusive aponta um maior distanciamento da “patroa” em relação à família da empregada doméstica, já que esta última trabalha longe da própria casa.
  • Enfocando as relações na academia, Hooks vê uma certa dificuldade de pesquisadoras brancas em ouvir pesquisadoras negras. A escrita geralmente não é pautada em depoimentos reais.
  • Em relação ao empoderamento feminino, o texto critica situações onde mulheres brancas que tem acesso a cargos de poder assumem posturas idênticas às machistas. Reproduzem relação serva-senhora na academia, querendo falar mais da negritude que as próprias negras. Atitudes como estas reforçam paradigmas de dominação.
  • Um ponto levantado foi que mulheres brancas de nível econômico menos elevado se colocam mais ao lado das negras, pela empatia na discriminação.
  • Ao final da discussão ficou claro que xs membrxs da Sonora não tinham ideia do que pensavam as mulheres negras a respeito de sua relação com as brancas. Todxs concordaram que há um longo caminho a percorrer para entender melhor o feminismo negro e, até, a própria branquitude, como apontou Bel Hooks. Antonilde Rosa sugere a leitura da tese da Juliana Werneck sobre a dificuldade das mulheres brancas de circular em ambientes públicos, prática a que às negras era permitido. Juliana é do Rio de Janeiro, da ONG Crioula. Ela é médica, engenheira e fez Mestrado e Doutorado em Comunicação.

Planejamento da próxima reunião – interna – dia 02/05/2016

  • Divulgação de eventos no calendário
  • Oficina sobre equipamentos de transmissão
  • Notícias do evento de Lilian Campesato em Londres

GE – La conciencia de la mestiza e o feminismo da diferença – Textos de Gloria Anzaldúa, Claudia de Lima Costa e Eliana Ávila

Grupo de Estudos sobre os textos “La conciencia de la mestiza/rumo a uma nova consciência” de Gloria Anzaldúa e “Gloria Anzaldúa, a consciência mestiça e o feminismo da diferença”, de Claudia de Lima Costa e Eliana Ávila.

O primeiro texto, uma edição de 2005 da Revista Estudos Feministas da UFSC,  inicialmente lançado em 1987,  é parte de seu livro Borderlands/La Frontera: The New Mestiza.

Gloria-Anzaldua-Borderlands-horizontal-640x398

Numa espécie de escrita mestiza, Anzaldúa se utiliza de uma forma textual construída sobre duas línguas e alguns dialetos indígenas (inglês e espanhol, no nosso caso, português e espanhol).

No segundo texto, há o debate sobre os conceitos de consciência mestiza e feminismo da diferença pelas autoras Costa e Avila, através dos escritos de Anzaldúa.

Em La Conciencia Mestiza, Gloria cria uma mistura de elementos textuais acadêmicos e poéticos, com recorrentes citações poéticas em destaque, as quais norteiam as reflexões mais argumentativas. Há diferentes “gêneros textuais e registros discursivos polivalentes. Mistura de poesia, autobiografia espiritual, ficção, discurso analítico (…).” ( Costa; Ávila, 2005). E há sempre o contexto da fronteira, seja da origem da autora, entre México e EUA,  seja  entre culturas,  raças, a partir dos olhos da mestiza.

Jose Vasconcelos, filósofo mexicano, vislumbrou una raza mestiza, una mezcla de razas afines, una raza de color – la primera raza síntesis del globo. Chamou-a de raça cósmica, la raza cósmica, uma quinta raça, abarcando as quatro raças principais do mundo. Em oposição à teoria da raça ariana pura, e à política de pureza racial praticada pela América branca, sua teoria é de inclusão. Na confluência de duas ou mais cadeias genéticas, com os cromossomos constantemente ultrapassando fronteiras, essa mistura de raças, em vez de resultar em um ser inferior, gera uma prole híbrida, uma espécie mutável, mais maleável, com uma rica carga genética. A partir dessa “transpolinização” racial, ideológica, cultural e biológica, uma consciência outra está em formação – uma nova consciência mestiza, una conciencia de mujer. Uma consciência das Fronteiras. (Vasconcelos apud Anzalúa, 2005).

Porque eu, uma mestiza, continuamente saio de uma cultura para outra, porque eu estou em todas as culturas ao mesmo tempo, alma entre dos mundos, tres, cuatro, me zumba la cabeza con lo contradictorio. Estoy norteada por todas las voces que me hablan simultáneamente (Anzaldúa, 2005).

Ao discutir o texto, fizemos uma espécie de introdução sobre como o fato de que estudar sobre o feminismo negro e interseccional gera questionamentos necessários sobre quais marcadores estão nos atravessando enquanto minoria (mulheres), e de outra forma, quais outros nos atravessam enquanto privilégio (mulheres brancas universitárias urbanas e de classe média, por ex.), e por que não, quais outros nos atravessam enquanto mestizas, no sentido que propõe Anzaldúa, de uma consciência pessoal interseccional mais ampla, entre elementos raciais, de gênero, de cultura, de história.

[Começei a pensar: “Sim, sou chicana, mas isso não define quem eu sou. Sim, sou mulher, mas isso também não me define. Sim, sou  lésbica, mas isso não define tudo que sou. Sim, venho da classe proletária, mas não sou mais da classe proletária. Sim, venho de uma mestiçagem, mas quais são as partes dessa mestiçagem que se tornam privilegiadas? Só a parte espanhola, não a indígena ou negra.” Começei a pensar em termos de consciência mestiça. O que acontece com gente como eu que está ali no entre-lugar de todas essas categorias diferentes? O que é que isso faz com nossos conceitos de nacionalismo, de raça, de etnia, e mesmo de gênero? Eu estava tentando articular e criar uma teoria de existência nas fronteiras. […] Eu precisava, por conta própria, achar algum outro termo que pudesse descrever um nacionalismo mais poroso, aberto a outras categorias de identidade.]  (Anzaldúa apud Costa e Ávila, 2005)

A pergunta que ressoa-nos é “quem sou eu?” E não é à toa, pois somos todas e somos nenhuma.

A ambivalência proveniente do choque de vozes resulta em estados mentais e emocionais de perplexidade. A contenda interior resulta em insegurança e indecisão. A personalidade dupla ou múltipla da mestiza é assolada por uma inquietude psíquica. Em um estado constante de nepantilismo mental, uma palavra asteca que significa partido ao meio, Lamestiza é um produto da transferência de valores culturais e espirituais de um grupo para outro. Ser tricultural, monolíngüe, bilíngüe, ou multilíngüe, falando um patois, e em um estado de transição constante, a mestiza se depara com o dilema das raças híbridas: a que coletividade pertence a filha de uma mãe de pele escura? (Anzaldúa, 2005).

Existem marcadores de classe, de gênero, raciais, de faixa etária, e ainda outros menos evidentes, como de saúde (pessoas com deficiências, por ex., ou doenças descapacitantes) ou de filiação. Nós transitamos muitas vezes, dependendo de um lugar para outro, entre alguns de classe, e de raça, por exemplo. Mas existe um problema estrutural de autoridade radicalizado.

O problema da exclusão estrutural é que ela nos interpõe situações em que se permanece dentro de um silenciamento da realidade das mulheres; por exemplo, as mulheres negras da periferia, dentro de uma sociedade familiar patriarcal branca tradicional, de classe média.

…E foi recentemente que soube, através de uma mulher pesquisadora negra, que a média dos assassinatos de mulheres brancas caiu em percentual e que a de mulheres negras aumentou consideravelmente. E que isso demonstrava o quanto a política pública de proteção à mulher, com a lei Maria da Penha, não é feita para a periferia das cidades, para o contexto onde existem mais mulheres negras.

Somos seres com um contexto muito bem localizado, com marcadores e trajetórias específicos, e no entanto lidamos com a fronteira de valores culturais, econômicos, sociais, dia-a-dia. Uma mulher branca universitária de classe média não saberá quais pressões e marcas carrega uma mulher negrada da mesma classe social. Somos situados historicamente e precisamos ouvir mutuamente sobre nossas lutas.

É preciso nos informarmos do que as mulheres e homens negrxs, xs índixs, as chicanxs, xs nordestinxs, têm a dizer. Pois as mudanças sociais precisam ser articuladas a partir do que elxs digam, constatem e decidam. E se devemos adquirir uma consciência planetária de raca humana, também devemos perceber as características locais de tradição, etnia, religião que cada pessoa  e grupo carrega singularmente, em cada comunidade. Porque cada comunidade estará pré-disposa de certa maneira, cada política pública deve ser adaptada de acordo com esses elementos locais, ou então, corre-se o velho risco do assistencialismo antropocêntrico branco, ineficiente e excludente.

O anglo branco oprime o homem chicano e o homem pobre, que por sua vez oprime o homem negro e todos oprimem as mulheres e as mulheres por sua vez, brancas, oprimem as negras, e as mulheres e homens por sua vez, oprimem as crianças e animais….Não existe uma hierarquia de valor nesta observação. Muito pelo contrário, ela é a verificação de que existe uma falsa conotação de que estas hierarquias de valor, que atuam sobre nós como marcadores, seriam intrínsecas  às pessoas (quase como castas), e isso é justamente o miasma trazido pela discriminação da mestiza e das minorias.

Dentro de nós e dentro de la cultura chicana, crenças arraigadas da cultura branca atacam crenças arraigadas da cultura mexicana, e ambas atacam crenças arraigadas da cultura indígena. De forma subconsciente,vemos um ataque contra nós e nossas crenças como uma ameaça e tentamos bloqueá-lo com um posicionamento contrário. (Anzaldúa, 2005)

Mas os marcadores não são fixos. Eles nos fazem transitar por onde temos privilégios ou marginalidades.  Estas condições entre opressor e oprimido transitam continuamente entre nossos papéis sociais, de gênero, de classe, e de como eles se desfazem ou se reconstituem dependendo de onde estamos, se estamos no nosso contexto de “origem” (nacionalidade, filiação, etc), ou em outros totalmente fora de nosso modo de ser lidx. Por exemplo, uma brasileira morena com traços árabes ou negros ou mesmo judeus, no Brasil, ainda é lida enquanto branca. Nos EUA ou Europa, provavelmente será lida de outra forma e consequentemente, tratada segundo aqueles pressupostos.

Percebemos que os comportamentos hegemônicos tentam se apropriar de um padrão (de beleza, de riqueza, etc)  e nos cooptar de acordo com ele, assim “marcando” tudo que sai da norma, como “diferente”. Mas essa diferença não possui um modelo natural, possuidor de alguma originalidade ou um valor intrínseco, como algum modelo qualquer a ser seguido: não é o negro que é diferente do branco; somos todos diferentes uns dos outros. Ver a diferença apenas no outro nos coloca sob certos padrões, e dentro de uma perspectiva colonialista, incide sobre modos de ver totalmente condicionados culturalmente e contextualmente -e não sobre constituições inatas ou essenciais das pessoas – criando falsas percepções de quem somos. Por isso é importante nos questionarmos quem somos por trás destas máscaras sociais embutidas e sobrepostas em nós mesmxs, mas que não nos constituem como essência. São reações sobre opressões e reações opressivas, enquanto  o problema for de autoridade.

Mas haverá que se deixar a margem do contraposicionamento:

Contudo, não é suficiente se posicionar na margem oposta do rio, gritando perguntas, desafiando convenções patriarcais, brancas. Um ponto de vista contrário nos prende em um duelo entre opressor e oprimido; fechados/as em um combate mortal, como polícia e bandido, ambos são reduzidos a um denominador comum de violência. O contraposicionamento” refuta os pontos de vista e as crenças da cultura dominante e, por isso, é orgulhosamente desafiador. Toda reação é limitada por, e subordinada à, aquilo contra o qual se está reagindo. Porque o “contraposicionamento” brota de um problema com autoridade – tanto externa como interna – representa um passo em direção à liberação da dominação cultural. Entretanto, não é um meio de vida. A uma determinada altura, no nosso caminho rumo a uma nova consciência, teremos que deixar a margem oposta, com o corte entre os dois combatentes mortais cicatrizado de alguma forma a fim de que estejamos nas duas margens ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, enxergar tudo com olhos de serpente e de águia. Ou talvez decidamos nos desvencilhar da cultura dominante, apagá-la por completo, como uma causa perdida, e cruzar a fronteira em direção a um território novo e separado. Ou podemos trilhar uma outra rota. As possibilidades são inúmeras, uma vez tenhamos decidido agir, em vez de apenas reagir. (Ibidem).

Parece haver uma necessidade de estarmos atentas pra esses agenciamentos contextuais e para essas máscaras que vêm junto deles, nos sendo impostas. Talvez seja preciso um constante questionamento sobre quem somos, pois esses marcadores confundem nossa própria percepção de nós mesmxs enquanto seres paradoxais, bilíngües, cheios de dialetos, com certa nacionalidade, mas pertencentes à uma mistura inumerável de raças, de patuás, de linguagens, de interlocuções.

Quem é, são esse(s) personagem(ns), essa(s) pessoa(s)?

Costa e Ávila  (2005), sobre Anzaldúa, enfatizam que:

“os terrenos da diferença são mais que nunca espaços de poder, a autora complica radicalmente o discurso feminista da diferença. Migrando pelos entre-lugares da diferença, mostra como esta é constituída na história e adquire forma a partir de articulações sempre locais – suas mestiçagens múltiplas revelam simultaneamente mecanismos de sujeição e ocasiões para o exercício da liberdade.”

E é entre esses lugares que a mestiza adentra a ambivalência dos marcadores cruzados e se reinventa outra. A “ ambigüidade e a indecidibilidade que acompanham o ato tradutório no qual Anzaldúa se engaja têm o efeito de perturbar os binarismos culturais.” (ibidem).

Como diz Glória:

A nova mestiza enfrenta tudo isso desenvolvendo uma tolerância às contradições, uma tolerância às ambigüidades. Aprende a ser uma índia na cultura mexicana, a ser mexicana de um ponto de vista angloamericano. Aprende a equilibrar as culturas. Tem uma personalidade plural, opera em um modo pluralístico – nada é posto de lado, o bom, o ruim e o feio, nada é rejeitado, nada abandonado. Não apenas sustenta contradições como também transforma a ambivalência em uma outra coisa. Ela pode ser jogada para fora da ambivalência por um acontecimento emocional intenso e, geralmente, doloroso, que inverte ou resolve a ambivalência. Não estou certa exatamente como. É uma atividade que acontece subconscientemente. É uma atividade feita pela alma. Aquele fulcro ou ponto específico, aquela junção onde se situa a mestiza, é onde os fenômenos tendem a colidir. É onde ocorre a possibilidade de unir tudo o que está separado. Essa união não se trata da mera junção de pedaços partidos ou separados. Muito menos se trata de um equilíbrio entre forças opostas. Ao tentar elaborar uma síntese, o self adiciona um terceiro elemento que é maior do que a soma de suas partes separadas. Esse terceiro elemento é uma nova consciência – uma consciência mestiza – e, apesar de ser uma fonte de dor intensa, sua energia provém de um movimento criativo contínuo que segue quebrando o aspecto unitário de cada novo paradigma. En unas pocas centúrias, o futuro pertencerá à mestiza. Porque o futuro depende da quebra de paradigmas, depende da combinação de duas ou mais culturas. Criando um novo mythos – ou seja, uma mudança na forma como percebemos a realidade, na forma como nos vemos e nas formas como nos comportamos – Lamestiza cria uma nova consciência. O trabalho da consciência mestiza é o de desmontar a dualidade sujeito–objeto que a mantém prisioneira, e o de mostrar na carne e através de imagens no seu trabalho como a dualidade pode ser transcendida. A resposta para o problema entre a raça branca e a de cor, entre homens e mulheres, reside na cicatrização da divisão que se origina nos próprios fundamentos de nossas vidas, nossa cultura, nossas línguas, nossos pensamentos. Extirpar de forma massiva qualquer pensamento dualista no indivíduo e na consciência coletiva representa o início de uma longa luta, que poderá, com a melhor das esperanças, trazer o fim do estupro, da violência, da guerra. (Anzaldúa, 2005).

GE – Leitura e discussão sobre o texto “A Tirania das Organizações sem Estruturas”, de Jo Freeman

O termo ‘Organizações sem Estruturas’ foi utilizado por Jo Freeman para referir-se ao formato dos primeiros grupos feministas que recusavam as superestruturas de poder, a hierarquia e o controle externo, características associadas a grupos masculinos. A ausência de estrutura definiu o modo de agir destes grupos pioneiros, para quem a conscientização, as discussões, o agregar e recepcionar novos membros eram os objetivos principais.

Segundo Freeman, os problemas começaram a aparecer quando, passada a euforia inicial, tais grupos quiseram fazer outras atividades e tecer novos projetos. Perceberam então que a falta de estrutura limitava suas ações, e que estruturar-se não significava engessar-se.

…..

Jo Freeman passou a não acreditar na eficiência de grupos sem estrutura. A autora entendeu que as mesmas podiam ser mais ou menos flexíveis, mas que sempre existiriam. O que aconteceria num grupo sem estrutura é que alguns controlariam as regras e outros não saberiam bem qual seria seu funcionamento, mas sentiriam que algo estava acontecendo ali.

Segundo a autora, para que o grupo ofereça oportunidades de inclusão, as regras devem ser claras e todos devem conhece-las. O grupo informal favorece a criação de elites, ou, o poder de grupos menores sobre grupos  maiores.

…..

De acordo com Freeman, elites são pequenos grupos de pessoas que influenciam mais do que outras em determinados grupos. Esta autoridade é percebida pelos demais membros, que passam a se comportar de acordo com esta noção. Todos sabem a quem devem ouvir mais atentamente e de quem será a palavra decisiva para a tomada de atitudes.

Os grupos de elite dentro de determinados grupos geralmente são amigos também fora deste contexto. Estabelecem comunicação à parte do que ocorre nos encontros do grupo. Pode haver um ou mais grupos de elite num grupo  maior, e eles podem se rivalizar pelo poder. Por sua vez, se o grupo for estruturado os outros integrantes poderão escolher membros para representa-los e dar-lhe sugestões de conduta, o que é saudável.  O pré-requisito para ocupar cargos de poder deve estar baseado nas características da personalidade e disponibilidade de tempo de quem se candidata.

…..

Um dos perigos da falta de estrutura é dar poder a quem não o merece, apenas porque se gosta da pessoa. Isto não tem maiores consequências quando o grupo não se lança a projetos maiores, mas atrapalha num segundo estágio do grupo.

Grupos inestruturados são bons para que as pessoas se abram sem reservas e falem de suas questões, mas não para fazer coisas acontecerem. A falta de estrutura não impede o grupo de divulgar suas ideias, mas dificulta a tomada de atitude para coloca-las em prática.

…..

Alguns princípios são considerados úteis por Freeman para a estruturação democrática de um grupo:

  1. Delegação, por meios democráticos, de autoridade específica a indivíduos específicos para tarefas específicas. Se pessoas são escolhidas para uma tarefa, preferencialmente após manifestarem um interesse ou vontade de fazê-la, elas assumem um compromisso que não pode ser facilmente ignorado.
  2. Distribuição da autoridade entre tantas pessoas quanto possa ser razoavelmente possível. Isso oferece a muitas pessoas a oportunidade de ter responsabilidade por tarefas específicas e dessa forma aprender habilidades específicas.
  3. Rotação de responsabilidades e tarefas entre as pessoas, para que ninguém se aposse de tal ou qual atividade.
  4. Difusão da informação a todos e acesso aos recursos do grupo.

…..

Sobre a autora

Jo Freeman nasceu em Atlanta (Georgia), em 1945, e cresceu em L.A., Califórnia. É ativista, cientista política, advogada e escritora. Formou e uniu-se a vários grupos feministas na década de 1960 e escreveu sobre as dificuldades dos mesmos, tanto internas (rivalidades, disputas de poder) quanto externas (reconhecimento, campo de ação).

Alguns de seus livros são “Women: A Feminist Perspective” (Mayfield Publishing Co., antiga National Press Books), que rapidamente se tornou referência para estudos feministas, e sua dissertação “The Politics of Women’s Liberation: A Case Study of an Emerging Social Movement and Its Relation to the Policy Process” (Longman Inc. after purchase from David McKay Co.), que recebeu prêmio de $1,000 como o melhor livro acadêmico sobre mulher e política.

GE (leitura/discussão) – Música indígena e teoria de gênero: Maria Ignez Cruz Mello

Esse encontro foi dedicado a um primeiro contato com o trabalho de pesquisa da compositora e musicóloga brasileira Maria Ignez Cruz Mello. De forma introdutória, fizemos a leitura de dois textos: um de Susan Fonseca, intitulado Etnografía y creación contemporánea: una aproximación desde el legado de Maria Ignez Cruz Mello, no qual a autora apresenta a pesquisa da Maria Ignez de modo panorâmico; e outro da própria Maria Ignez, intitulado Relações de gênero e musicologia: reflexões para uma análise do contexto brasileiro. Através dessas leituras pudemos compreender como se articulam os dois eixos principais do trabalho da Maria Ignez: a teoria de gênero e a música indígena.

Maria Ignez realizou ampla pesquisa (teórica e de campo) sobre o Ritual Iamurikuma, o maior ritual feminino do Alto Xingu, MT. Essa pesquisa resultou em seu trabalho de doutorado, intitulado Iamurikuma: Música, Mito e Ritual entre os Wauja do Alto Xingu (UDESC, 2005). No resumo de sua tese, ela diz:

“Esta tese é uma etnografia do ritual de iamurikuma entre os índios Wauja, do Alto Xingu. Com base na mitologia e no discurso nativo, o universo em torno deste ritual é analisado especialmente em sua dimensão musical. O ritual de iamurikuma, realizado pelas mulheres, é entendido como um dos lados de um complexo músico-ritual que envolve humanos e ‘espíritos’ apapaatai, tendo como sua outra face o mundo das flautas kawoká, que são tocadas pelos homens e não podem ser vistas pelas mulheres. A música, através de sua formalização e do jogo em torno dos sentidos e das proporções, é considerada o elemento central do ritual, constituindo a forma ideal de expressão dos afetos.” (MELLO, 2005, p. 4)

niversidade Federal de Santa Catarina

Desenho do ritual de Iamurikuma feito por Ajoukuma Waurá. Figura retirada da capa da tese de doutorado de Maria Ignez Cruz Mello.

A pesquisa de doutorado de Maria Ignez é bastante extensa e inclui: um relatório da sua pesquisa de campo realizada com os Wauja; um estudo sobre a sociedade xinguana, abordando temas como sistema sócio-cultural, língua, ritos, cosmologia e xamanismo; um estudo comparado entre os rituais iamurikuma e kawoká; uma descrição detalhada do ritual de iamurikuma que ela pôde observar presencialmente em 2001, incluindo algumas transcrições musicais; e algumas análises musicais das canções.

Em seu trabalho, Maria Ignez observou a forte marcação dos papéis de gênero entre os Wauja, que inclui esta a radical separação entre os rituais kawoká e iamurikuma. Enquanto iamurikuma seria um ritual exclusivamente feminino e estritamente vocal, o kawoká seria um ritual exclusivamente masculino e concentrado na música instrumental através do uso das flautas (instrumentos que não podem ser vistos pelas mulheres, sob risco de sofrerem estupro coletivo como punição). Porém, a despeito dessa aparente separação radical entre os rituais, Maria Ignez conclui a partir da análise dos dois repertórios que a música iamurikuma é de fato a música kawoká e que tal oposição não se sustenta exatamente no conteúdo musical. A partir desse eixo de leitura, ela desenvolverá sua hipótese de que esses rituais são complementares e constituem um complexo mítico-musical único.

Nosso encontro também teve a participação do compositor e musicólogo Acácio Piedade (UDESC), que acompanhou de perto o trabalho de pesquisa da Maria Ignez. Ele nos ajudou a compreender melhor algumas especificidades da sociedade Wauja. Ele nos contou, por exemplo, como o sexo é um assunto corriqueiro e tratado sem tabu entre os Wauja. Perceber esta e muitas outras diferenças entre os Wauja e a cultura branca ocidental nos conduziu à discussão sobre a impossibilidade de ler as questões de gênero entre os Wauja exclusivamente a partir da nossas experiências e perspectivas. O debate contribui muito para a importância de se pensar numa pluralidade inerente à noção de feminismo.

Para complementar nossas leituras, assistimos também o filme As Hiper Mulheres (2011) que mostra justamente todo o processo de preparação e realização do ritual Iamurikuma no Alto Xingu.

 

Maria Ignez Cruz Mello (1962–2008)

Maria Ignez

“Começou seus estudos de piano aos 3 anos de idade, e com esta idade começou a compor pequenas peças. Em 1969 ingressou no conservatório dramático musical de sp, onde completou o curso de piano como bolsista durante 10 anos, se formando em 1979. Foi premiada com no concurso de Composição “Troféu Bach”, promovido pelo Centro de Pesquisas Físicas, Biológicas e Musicais de São Paulo, durante quatro anos consecutivos:1975, 1976, 1977 e 1978. Trabalhou um tempo com demonstradora de piano, ainda criança, na loja Mappin em SP, e mais tarde como regente do coral da Justiça de SP em 1980-81. Participou do Festival de Inverno de Campos de Jordão em 1981, curso de regência coral com Henrique Gregori. Em 1981 ingressou no curso de composição da UNICAMP, tendo estudado com Almeida Prado e Damiano Cozzella e se formado em 1986. Fez cursos de composição eletroacústica com Conrado Silva em1986. Viveu na Alemanha e na Austria entre 1987 e 1989, tocando em diversos grupos, estudando música e alemão. De volta ao Brasil 1990, em SP, cantou no coral Psychophármacon, trabalhou como produtora cultural e abriu uma escola de música, Casa Dois. Mudou-se para Floripa em 1994, dois anos depois do nascimento de sua filha e de Acácio, Júlia. Depois do mestrado e doutorado em Antropologia na UFSC, sob orientação de Rafael Bastos,ingressou como profa. da UDESC em 2005. Em 2007 foi curadora da mostra de arte indígena NAAKAI: a trama ritual na vida wauja, Museu de Arte da UFPR.” (Biografia escrita por Acácio Piedade, disponível em: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.498650460194838.1073741828.498644663528751&type=1)

 

 

Leituras

 

Filme

“As Hiper Mulheres”. Dir. Takumã Kuikuro, Leonardo Sette e Carlos Fausto | 80 min. 2011. PE

 

GE (leitura) – Susan McClary: Feminine Endings

Neste encontro fizemos nossa primeira discussão a partir da leitura de um texto. A proposta veio do reconhecimento da necessidade de tomarmos um primeiro contato com a musicologia feminista, para isso fomos buscar Susan McClary, uma das musicólogas frequentemente creditada pela abertura de espaço para a discussão de gênero dentro da musicologia.

Susan McClary (n. 1946) começou sua carreira na década de 1970 lecionando na Universidade de Minnesota (1977-1991), posteriormente na McGill University (1991-1994), na Universidade da Califórnia, Los Angeles (1995-2011) e na Case Western Reserve University (2011-). McClary se notabilizou na década de 1980 publicando artigos que defendem um estudo da música que valoriza o contexto da prática musical e chamando atenção para questões tradicionalmente ignoradas no estudo da música como corpo, emoções e gênero, além dos aspectos socioculturais que influenciam ou se manifestam nestas práticas. Alguns destes artigos estão reunidos no livro que escolhemos discutir – Feminine Endings: Music, Gender, and Sexuality – publicado pela primeira vez em 1991. Este livro é amplamente considerado o trabalho fundador da musicologia feminista, daí sua relevância para nosso grupo.

 

Entrevista com Susan McClary

 

Ao favorecer a valorização do contexto na análise de peças musicais McClary se coloca em oposição ao estudo da música que se funda na ideia de autonomia da obra de arte, corrente que dominava o campo da musicologia e da teoria musical até então. Por este aspecto, McClary se aproxima de um grupo de musicólogos, a maioria anglófonos, que pratica o que passou a ser chamado de Nova Musicologia[1], um grupo bastante heterogêneo e informal, que em alguns casos nem se identificam com a alcunha, mas que em geral têm em comum esta preocupação com a contextualização da obra musical e uma crítica forte à autonomia e à leitura formalista da música.

Para este encontro de nosso grupo de estudo combinamos de ler o prefácio (Feminine Endings in retrospect), escrito para a reedição em 2002, que traz uma avaliação do efeito que o livro teve e das mudanças ocorridas no campo da musicologia desde então e o capítulo 6 (This is not a story my peaple tell) que analisa duas canções de Laurie Anderson: “O Superman” e “Langue d’amour”.

 

Canções de Laurie Anderson discutidas no texto:

 

Principais livros de Susan McClary:

Principais artigos de Susan McClary:

[1] Outros musicólogos que podemos considerar parte deste movimento nas décadas de 1980 e 90 são Joseph Kerman, Kevin Korsyn, Daniel Chua, Suzanne Cuzick, Judy Lochhead, Ruth Solie, Rose Subotnik, Philip Brett, Elizabeth Wood, entre outros.

GE (sessão de escuta) – Beatriz Ferreyra, Michèle Bokanowski e Eliane Radigue

A terceira sessão de escuta do grupo foi voltada para três compositoras que em algum momento de sua carreia estiveram ligadas ao GRM (Groupe de Recherche Musicales) em Paris: Beatriz Ferreyra, Michèle Bokanowski e Eliane Radigue.

 

beatriz-ferreyra

Beatriz Ferreyra

 

Beatriz Ferreyra é uma compositora argentina, nascida em 1937, que imigrou para Paris na década de 60. Lá obteve formação de compositora, seguindo um percurso comum a compositores da época, tendo estudado com Nadia Boulanger e Edgardo Canton, e frequentado o curso de verão de Darmstadt em 1967, ano em que Gyorgy Ligeti e Earle Brown eram os palestrantes. Ferreyra tem um perfil de pesquisadora, trabalhou no GRM entre 1963 e 1970, tendo colaborado na criação dos exemplos para o Solfège de l’objet sonore (discos que acampanham o Traité des objets musicaux de Pierre Schaeffer), assim como em outras pesquisas coordenadas por Guy Reibel que foram incorporadas ao Traité. Em 1970 Beatriz Ferreyra trabalhou com Bernard Baschet em sua pesquisa para construção de esculturas sonoras (Structures Sonores), e em 1976 foi para Dartmouth onde colaborou com Jon Appleton no desenvolvimento do Synclavier, um misto de sintetizador e sampler digital.

Beatriz Ferreyra compõe música eletroacústica desde 1965, tendo um vasto catálogo e ao menos 5 discos lançados comercialmente. Para esta sessão de escuta escolhi duas peças eletroacústicas: Echos de 1979, onde a compositora utiliza quatro gravações de canções latino-americanas (duas argentinas e duas brasileiras) a capela, interpretadas por Mercedes Cornu como material; e The UFO Forest de 1985 que, ao menos para mim, soa como uma peça de programa, com sua profusão de materiais e gestos na construção de um arco dramático.

 

 

Desde 2011, Beatriz Ferreyra atua em um duo de improvisação eletroacústica com a compositora francesa Christine Groult, tendo a particularidade de se apresentar tocando toca-fitas ao vivo.

 

 

Links:

Discografia:

  • 1998-Petit Poucet Magazine [Le Chant Du Monde]: Cando del Loco
  • 2012-Beatriz Ferreyra [INA-GRM]
  • 2013-La Rivière des Oiseaux [Motus-Acousma]
  • 2014-Christine Groult & Beatriz Ferreyra – Nahash [ds&e]
  • 2015-GRM Works [Recollection GRM]

 

bokanowski

Michèle Bokanowski

 

Michèle Bokanowski é uma compositora francesa, nascida em 1943. Na década de 60 estudou no conservatório de Paris. Paralelamente estudou composição com Michel Puig (discípulo de René Leibowitz), e música eletrônica com Eliane Radigue. Entre 1970-72 fez o curso e estagiou no GRM. De 1972 em diante trabalhou principalmente com trilhas pra cinema – cultivando uma longa parceria com seu companheiro, o cineasta Patrick Bokanowski –, além de trilhas para dança e teatro, e também música eletroacústica de concerto. Sua música se caracteriza pela repetição com pequenas variações, pelos silêncios e pela economia de material. Para a sessão selecionei o primeiro filme curta metragem para o qual fez trilha, La femme qui se poudre (1972):

 

 

E uma peça de concerto, o primeiro movimento da peça Cirque (1994), intitulado Allegro. Em Cirque, Bokanowski trabalha com sons característicos do circo, os sons são montados de forma que se mantenham facilmente reconhecíveis e são repetidos diversas vezes, formando loops, enquanto mais camadas vão sendo adicionadas. Michèle Bokanowski parece buscar o equilíbrio exato entre uma escuta “dramática” dos sons e uma escuta dos “sons pelos sons”, questão cara à música concreta, enquanto testa a velha ideia de que um som repetido diversas vezes perde sua significação.

 

 

Links:

Discografia:

 

Outros de seus filmes disponíveis na internet:

 

ragidue

Eliane Radigue

 

Eliane Radigue, compositora francesa nascida em 1932, na década de 50 trabalhou no GRMC – instituição que deu origem ao GRM – como assistente de Pierre Schaeffer e Pierre Henry. Na década de 60 se casou com o artista plástico Arman, teve filhos e se afastou da música. Em 67 se divorcia, retorna a Paris e volta a ser assistente de Henry em seu estúdio particular, onde faz suas primeiras peças usando feedback, loops e “erosão eletrônica”[1]. Sua música deste período se caracteriza pelo uso de sons normalmente considerados erros, sons gerados por “mal uso” das máquinas como a realimentação (feedback), corrosão da mídia de gravação, excesso de reverberação, etc. Em 1970 mudou-se para Nova York para passar um tempo trabalhando na NYU pois havia desenvolvido um interesse por sintetizadores e desejava aprender a usar o Buchla 100 disponível na universidade. Pouco depois decide que a composição com sintetizadores é de fato o caminho que quer seguir, então resolve comprar um ARP2500 para poder trabalhar em seu estúdio particular. Neste período Radigue se dedica a compor peças longas e contínuas, com transformações bastante lentas, propondo uma experiência de temporalidade bastante particular. A partir de 2004, depois de 34 anos utilizando o ARP2500 como instrumento de composição, Radigue abandona o sintetizador e passa a fazer parcerias com intérpretes, usando tanto instrumentos acústicos quanto eletrônicos, como em Before the Libretto feito em parceria com o trio feminino de laptops The Lappetites, e Elemental II em parceria com o baixista Kasper T. Toeplitz acompanhado de processamento eletrônico em tempo real. A maneira com que as parcerias de Radigue são conduzidas é bastante peculiar, a compositora não escreve nenhum tipo de partitura, a obra é desenvolvida em conjunto com o intérprete ao longo de encontros/conversas/ensaios, após a peça estar pronta, ela passa a ser daquele intérprete específico, não há a intenção de criar uma partitura para que outros intérpretes possam tocá-la.

Para esta sessão de escuta optei por peças menos conhecidas de Radigue, selecionei duas peças do início de sua carreira, pré-sintetizador, ambas criadas para ambientes fora da sala de concerto, e um excerto de uma peça recente para arpa. A primeira se chama Σ = a = b = a + b, composta em 1969, é uma peça que utiliza como material sons gerados por feedback, o resultado é gravado em um disco de 7 polegadas (45rpm), utilizando ambos os lados. A peça não é uma obra de concerto eletroacústico tradicional, ela deve ser executada em um ou mais toca-discos, sendo que os discos podem ser reproduzidos em quatro velocidades diferentes à escolha do intérprete/ouvinte. O título da peça pode ser considerado uma partitura desta execução, Σ = a = b = a + b, ou seja, a peça pode ser apenas o lado A, apenas o lado B, ou uma soma dos dois através de sobreposição do som de ao menos dois toca-discos.

 

Lado A de Σ = a = b = a + b

 

A outra peça deste período inicial da carreira de Radigue é Maquette, parte da obra Opus 17 de 1970, sua primeira obra com duração fixa. Opus 17 foi composta para um evento chamado Fête en blanc organizado por um grupo de artistas plásticos[2] no Centro de Artes da Chateau de Verderonne (à 70km de Paris) em junho de 1970. O evento foi uma espécie de ritual coletivo onde todos os presentes vestiam mantos brancos desenhados por Paco Rabanne. O ritual envolveu performances, trocas de experiências, uma procissão, e oferendas, culminando em um jantar com apenas comidas brancas servido sob um enorme domo branco desenhado por H. W. Müller.

 

dorothee_selz_performances_04

Foto do evento Fête en blanc (1970): fonte

 

O material de Maquette foi todo criado com a técnica de erosão eletrônica aplicada a um trecho da ópera Parsifal de Wagner. Opus 17 é o último trabalho de Radigue que utiliza técnicas de feedback e erosão eletrônica, e serve de ponte entre as peças de início de carreira e a fase eletrônica de Radigue, pois o interesse por variações quase imperceptíveis já é bastante evidente.

 

Maquette (1970)

 

Por fim mostrei um excerto de uma peça instrumental de Radigue, Occam I para harpa (2011), é interessante notar como o interesse por sons contínuos e uma temporalidade estendida se transporta de uma meio para outro. Esta peça não foi lançada em gravação comercial, no entanto é possível ouvir alguns trechos no youtube.

 

 

Links:

Discografia:

 

[1] “Erosão eletrônica” é o nome dado pela compositora para a técnica que utiliza a sucessiva aplicação de reverberação, em uma sala de eco ou similar, para transformar o som tornando-o irreconhecível. Uma peça de Radigue que pode servir de demonstração didática do processo é o Étude, movimento de Opus 17, composta em 1969, que parte de uma gravação do Prelúdio n. 23 op. 28 de Chopin. A peça pode ser ouvida aqui: link

[2] Os artistas organizadores são: Antoni Miralda, Joan Rabascall, Dorothée Selz, Jaume Xifra. Os websites pessoais dos artistas contem mais informações sobre o evento.

GE (sessão de escuta) – Jacqueline Nova, Graciela Paraskevaídis e Jocy de Oliveira

No quarto encontro do nosso grupo, fui encarregada de apresentar 3 compositoras latino-americanas. Isto se deveu à minha familiaridade com o assunto, já que minha tese de Doutorado enfocou a música latino-americana do século XX. As três compositoras em questão foram praticamente pioneiras na música experimental e contemporânea do nosso continente, dado que participaram das primeiras experiências com equipamentos eletrônicos, uso de múltiplas mídias simultaneamente, incorporação de ruídos, silêncios e acasos em suas composições. Um importante laboratório para estes experimentos foi o Centro Latinoamericano de Altos Estudios Musicales (CLAEM), instalado no Instituto Torcuato Di Tella em Buenos Aires, em meados de 1962. Seu diretor era o conhecido compositor argentino Alberto Ginastera. Por este estabelecimento passaram duas das compositoras apresentadas neste evento.

Jaqueline Nova nasceu na Bélgica, em 1935, e faleceu na Colômbia, em 1975. Filha de mãe belga e pai colombiano, Nova mudou-se para Bucaramanga (CO) ainda na primeira infância. Iniciou sua educação musical aos sete anos, tendo aulas particulares de piano. Aos vinte anos passou a morar e estudar piano em Bogotá, ingressando no Conservatório da Universidade Nacional. Lá inicia a carreira de composição, sob orientação de Fabio González Zuleta. Foi a primeira compositora a se graduar neste estabelecimento.

De acordo com Ana María Romano (1), Jaqueline Nova demonstrou, em suas composições, o fascínio que sentia pelo momento presente e o desejo de romper com o que chamou de “glórias ou nostalgias ligadas à ideia de que tudo fora melhor nos tempos passados”. Para manter-se conectada ao momento presente, sentia necessidade de inserir à sua criação artística a tecnologia que havia disponível.

Nova rompeu com vários tabus nos idos de 1960-70. A escolha da composição por si só já representava uma ousadia para uma mulher da burguesia tradicional colombiana, às quais era mais conveniente o estudo do piano. O uso de novas tecnologias e de sonoridades pouco convencionais vêm assomar-se a este universo, respondendo a reflexões e questionamentos de ordem pessoal da compositora. Romano circunscreve estas descobertas no que chama de 1º momento da trajetória composicional de Jaqueline Nova, entre 1965 e 67.

O 2º período apontado por Romano (1) é justamente o que a compositora passa como bolsista no CLAEM, em Buenos Aires (AR), entre 1967 e 68. Lá Nova faz suas primeiras experiências em música eletroacústica, tendo à sua disposição um laboratório equipado com aparelhos de última geração. Estes recursos não eram possíveis na Colômbia de então. Desde este período a compositora passará a criar uma música mista, que dialoga com a tradição acústica e com a mídia eletrônica. Isto, aliado a posturas de natureza pessoal, a isolará ainda mais do ambiente musical colombiano, bastante conservador naquela época. A peça Oposición-fusión, para sons eletrônicos em fita gravada, marca esse período.

O 3º período criativo de Nova, entre 1969 e 75, caracteriza-se por sua volta à Colômbia e pela militância pela música experimental e contemporânea. Compõe o ciclo “Asimetrías” e ministra palestras-concerto, como “La música eletrônica”, em Bogotá e Medellín. Utiliza a experimentação como parte do exercício criativo, e justifica seu interesse na mesma pela semelhança entre as mudanças ocorridas na música e na vida humana. Emprega o ruído como material sonoro entre os demais. Desta época é a peça Creación de la tierra, para voz processada e fita gravada. Como material, Nova usa um texto original da comunidade colombiana de Boyacá, que trata da criação da Terra.

Jaqueline Nova morreu de câncer nos ossos, em 1975. Sua música integra elementos e técnicas como serialismo, aleatoriedade, músicas indígenas e música popular, além de utilizar meios eletrônicos juntamente com instrumentos da orquestra tradicional.

Graciela Paraskevaídis nasceu em Buenos Aires (AR), em 1940. Estudou no Conservatório Nacional de Música de Buenos Aires, seguindo como bolsista no CLAEM. Fêz intercâmbio em Freiburg, como bolsista do DAAD – Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico. Em sua biografia, Paraskevaídis cita o estímulo à composição e as importantes orientações recebidas de Roberto García Morillo, Iannis Xenakis e Gerardo Gandini, bem como o exemplo ético de Edgar Varèse, Silvestre Revueltas y Luigi Nono. Paraskevaídis atua também no âmbito acadêmico, fazendo pesquisa, lecionando e publicando artigos sobre a música contemporânea. É responsável pelo site Magma, onde disponibiliza partituras, textos, e dados de sua carreira profissional e pelo Latinoamerica-musica.net, dedicado à música da América Latina, no qual a compositora publica textos de sua autoria e de outros importantes compositores, professores e pesquisadores da música latino-americana. Paraskevaídis reside em Montevidéu (UY).

Sobre sua obra, Cergio Prudencio (BO) disse basear-se no uso do som como textura, concebendo o tempo espacial oposto a qualquer discursividade. O compositor aponta ainda a austeridade de material, podendo partir de um acorde, um cluster ou outro elemento de caráter interválico ou timbrístico; a estrutura contida, onde os materiais não fluem nem se repetem; a dinâmica sensível, cujo manejo convoca o ouvinte a se comprometer com a peça; e o uso de técnicas eletroacústicas.

Escutas sugeridas:

Jocy de Oliveira nasceu em Curitiba (BR), em 1936. Teve entre seus professores de piano José Kliass, no Brasil, e Marguerite Long, em Paris. Como compositora, utiliza diferentes técnicas concomitantemente, como instalações, textos, vídeos, teatro e, logicamente, música. Compôs, dirigiu, e roteirizou seis óperas, apresentadas em países como Brasil, Alemanha e EUA. É autora e intérprete de 22 discos, além de ter gravado a obra pianística de Olivier Messiaen. Foi agraciada com a dedicatória de várias composições, como as de Claudio Santoro, Luciano Berio, John Cage e Iannis Xenakis. Recebeu prêmios de associações como Fundação Vitae, RioArte, Guggenheim Foundation, New York Council on the Arts, Rockfeller Foundation, entre outras.

Jocy de Oliveira fala um pouco sobre seu trabalho no clipe Imersão. Nesta retrospectiva, ela descreve uma obra em constante transformação, mas com alguns pontos que perduram, como, por exemplo, o acaso. Outros elementos que usa com frequência são a tecnologia e o teatro. Cria óperas, entre outros, para dar uma dimensão visual à sua música, pois acredita que o público está mais acostumado a ver do que a ouvir.

Escutas sugeridas:

Referências

Encarte da coleção de CDs Coletânea de música eletroacústica brasileira. Curador Jorge Antunes. Textos Luís Roberto Pinheiro e Jorge Antunes.

PRUDÊNCIO, C. Sobre Graciela Paraskevaídis. Disponível em: www.gp-magma.net/es_testimonio.html#So

ROMANO, A. M. Jaqueline Nova y el maravilloso mundo del ruído. Disponivel em: http://www.revistaarcadia.com/impresa/especial-chicas-afuera/articulo/jacqueline-nova-maravilloso-mundo-del-ruido/32439