Ata da reunião de 09/12/2019 – GE “Arte Sonora é trabalho? Redes Afetivas, Indústria Cultural, Precariedade e Decolonialismos”. Com Vanessa De Michelis (via skype).

Vanessa De Michelis conduziu este Grupo de Estudos sobre Arte e Trabalho, pesquisa que vem desenvolvendo em seu Mestrado em Londres (Inglaterra) há alguns anos. Ela enviou, previamente, os textos Unpacking the Politics of Creative Labour, do livro “Be Creative: Making a Living in the New Culture Industries”– de Angela McRobbie –, e Setting the stage: the cultural and creative industries, entrepreneurialism, and the classical music profession, do livro “Gender, Subjectivity, and Cultural Work: The Classical Music Profession” – de Christina Scharff –, para que fossem lidos e discutidos neste encontro.

Vanessa iniciou dando um panorama de como foi sua escolha para estudar em Londres, as expectativas, as dificuldades, as frustrações por ser uma latino-americana no chamado Primeiro Mundo em meio a preconceitos e descompassos. Essa foi uma das razões de ela ter escolhido estudar Políticas Culturais em vez de Arte Sonora. Sua situação em meio às e aos artistas nascidos no mundo desenvolvido, com todo o suporte e background que isso implica e representa.

Ela descobriu Angela McRobbie, que estudou e estuda os processos sociais nos ambientes culturais. Angela pesquisa o apagamento das mulheres na contracultura de 1960-70, ao mesmo tempo em que artistas da contracultura iam se estabelecendo e, de certa forma, se institucionalizando nesse cenário. Artigos de Angela foram publicados em revistas femininas da década de 1970. Ela observa a presença das mulheres no mercado de trabalho.

Paralelamente, Vanessa mergulhou na história da indústria cultural a partir da Guerra Fria, a fim de desvendar os processos políticos que conformaram estes espaços de poder. Ela chama atenção para a importância dada à produção e circulação de materiais artísticos em detrimento do próprio conteúdo neles embutido. Durante a Guerra Fria, fez-se primordial sobrepor a ideia de criatividade à de cultura, até então vinculada a questões marxistas.

A criatividade é cultivada desde a infância para, um dia, ser aplicada ao mercado de trabalho. As universidades inglesas têm estratégias e setores voltados à inserção de alunas(os) no mercado de trabalho. Há uma ilusão romanceada a respeito das carreiras artísticas. Angela conta como a subcultura foi cooptada pelo mainstream, ainda que este não se interesse profundamente por ela.

A ideia de proletarização do trabalho artístico, a destruição dos sindicatos e organizações de classes e a narrativa de que as(os) artistas sairão vencedoras(es) por sua dedicação, persistência e talento, faz com que esta situação se mantenha, alimentando a crença no neoliberalismo.

Na Inglaterra, aproximadamente 10% da economia gira em torno das atividades culturais. Eles exportam cultura para o resto do mundo. No caso do Brasil, o número de pessoas empregadas na cultura equivale a 2% do PIB. Destas, a maior parte está empregada no âmbito do consumo: propaganda e marketing, aromas, sabores, coisas afins. A menor parte está na performance, artesanato, etc.

Algumas questões que emergiram da fala da Vanessa foram: quais São as reais perspectivas do Brasil se inserir no rol de países onde se pode viver de fazer arte? Quais são as chances de se realizar um sonho de ser profissional da arte? Quais são os rumos da pesquisa em humanas e, em especial, em música?

Enfim, os textos e as pesquisas trazidas pela Vanessa foram muito importantes para fechar o ano de atividades da Sonora, com reflexões para 2020 e para a vida.

Seguimos!

16/10/2017 – GE sobre texto “O Público e o Privado” de Flavia Biroli

O encontro de hoje foi dedicado ao Grupo de Estudos sobre o texto “O Público e o Privado” de Flavia Biroli. Vários pontos do texto foram levantados e geraram discussão sobre temas mais amplos, mostrando a complexidade do tema.

 

Em relação à dualidade esfera pública e privada:

  • Flavia aponta a necessidade de expor a história não contada da CONSTRUÇÃO DA ESFERA PÚBLICA a partir da POSIÇÃO DAS MULHERES. Segundo a autora, a política das relações de poder começa na VIDA COTIDIANA.
  • De acordo com o conceito de que esfera pública baseia-se na RAZÃO e na IMPESSOALIDADE e esfera privada corresponde às relações de caráter PESSOAL e ÍNTIMO, a domesticidade feminina foi cultivada culturalmente para manter esta dualidade. Tal domesticidade foi cunhada de modo a parecer um TRAÇO NATURAL E FISIOLÓGICO das mulheres, frente ao qual qualquer outra característica era considerada DESVIO DE COMPORTAMENTO.
  • A esfera privada foi “protegida” da intervenção do Estado, preservando relações autoritárias que limitaram a autonomia das mulheres. A garantia de privacidade para o domínio familiar e doméstico garantiu a dominação masculina e bloqueou a proteção a indivíduos mais vulneráveis nas relações de poder correntes – como mulheres e crianças. A esfera privada é vista como lugar onde a justiça comum não se aplica porque envolve RELAÇÕES DE AFETO.
  • Mas é a dominação da mulher na esfera privada que garante o sucesso do homem na esfera pública. Sem falar na AUSÊNCIA DE CIDADANIA E DE DIREITO À INTEGRIDADE FÍSICA que sofrem mulheres expostas a abusos e estupros no casamento. Seus corpos não lhes pertencem: são passados da dominação paterna à do marido na cerimônia do matrimônio.

 

Em relação aos horizontes limitados:

  • “Relações mais justas na vida doméstica permitiriam ampliar o horizonte de possibilidades das mulheres, com impacto em suas trajetórias pessoais e formas de participação na sociedade”. Nas relações familiares há diferença na divisão das responsabilidades sobre a vida doméstica (pesando mais sobre as meninas) e dos estímulos que favorecem maior exercício da autonomia (mais dirigidos aos meninos).
  • A falta de mulheres na vida pública reduz a possibilidade de que se discutam e avancem em questões como CUIDADO COM AS CRIANÇAS, CUIDADO COM IDOSOS, VIOLÊNCIA E DOMINAÇÃO DE GÊNERO.
  • As barreiras para que mulheres exerçam trabalho remunerado fora de casa são associadas ao TEMPO QUE AS MESMAS GASTAM NA ESFERA DOMÉSTICA (Didier Marc Garin contou, quando esteve no Brasil, que na França as mulheres recebem 25% menos que homens na mesma função por sua “suposta” menor dedicação à empresa devido aos afazeres doméstico e familiares. Ainda que isso não se comprove na prática).
  • A mesma justificativa permite aos homens ter mais acesso a trabalhos de grande dedicação e responsabilidade na empresa, pois SUPÕE-SE QUE SEJAM LIVRES PARA ATENDER A EXIGÊNCIAS PROFISSIONAIS.
  • As expectativas sociais conduzem a desenvolvimentos de habilidades diferenciadas para homens e mulheres. Mulheres são orientadas para a CONQUISTA DO CASAMENTO (e há todo um mercado de consumo para que disputem o parceiro que lhes garantirá suporte econômico).

 

Em relação ao mundo corporativo:

  • “O mundo do trabalho se estruturou com o pressuposto de que os ‘trabalhadores’ têm esposas em casa”. O controle dos recursos ficou a cargo dos homens, ainda que o resultado de seu trabalho conte com a dedicação das mulheres.
  • Por outro lado, a atuação das mulheres na prática do cuidado é vista como formadora de uma ÉTICA DISTINTA (isso pode ser visto nas urnas, quando vota-se em mulher POR SEU CARÁTER e não por sua CAPACIDADE DE GESTÃO).
  • Algumas feministas apontam também a desvalorização do trabalho doméstico frente ao assalariado, o que nem sempre é real. Muitas mulheres da classe trabalhadora são exploradas, recebem menos que o salário mínimo e poucos benefícios. NEM SEMPRE TRABALHAR FORA DE CASA É SINÔNIMO DE PROJEÇÃO E INDEPENDÊNCIA. “A FAMÍLIA PODE SER UM REFÚGIO PARA INDIVÍDUOS QUE SOFREM DISCRIMINAÇÃO NA SOCIEDADE MAIS AMPLA”.

 

Em relação às privacidades seletivas:

  • Privacidades tem sentidos diferentes conforme a posição do indivíduo nas relações de poder:

HOMENS BRANCOS têm privacidade no espaço público (escritórios com portas fechadas e controle sobre quem tem acesso)

MULHERES BRANCAS DE CLASSE MÉDIA podem usar tempo livre – já que outras mulheres (pobres) fazem o serviço doméstico para elas – para atuar na esfera pública. Os eletrodomésticos e maquinário também ajudam as mulheres de classe média

  • Na esfera pública, privacidade pode depender de um menor grau de privatização, ou, da SOCIALIZAÇÃO DAS TAREFAS DOMÉSTICAS (como pensado por Lênin na Revolução).
  • Há um risco na possibilidade de intervenção estatal na esfera privada: o da intervenção em outras formas de relacionamento familiar – LGBT, por exemplo.
  • Mesmo o direito ao aborto é visto por algumas feministas como maléfico por permitir aos homens se livrar das consequências reprodutivas da relação sexual.

 

ALGUMAS CONCLUSÕES:

“A pluralidade democrática depende da garantia do espaço para o florescimento de identidades baseadas em crenças e práticas distintas”

“A garantia da privacidade depende da crítica à dualidade convencional entre o público e o privado” e da crítica “às desigualdades de gênero a que esta realidade tem correspondido”.

Sugestão de autoras para leitura:

  • Valerie Solanas (Scum manifesto)
  • Julie Falket
  • Monique Wittig (Amazonas)
  • Helleieth Saffioti (livro “Gênero, Patriarcado, Violência”)

 

 

 

 

Ata da reunião de 19/06/2017 – interna

Pauta

A reunião de hoje foi iniciada enfocando os últimos eventos realizados pela Sonora, em especial a série Vozes com a compositora Denise Garcia e o GE que o antecedeu. Seguiu conforme agenda prevista no cronograma do fim de semestre, definido no encontro do dia 15/5, com a temática da organização e estrutura da rede. Alguns assuntos pontuais também foram tratados, uma vez que este foi o penúltimo encontro do semestre.

  • Sobre a entrevista da Denise Garcia, foi retomado o ambiente informal e aberto do encontro, em que a compositora contou sua trajetória. Como as questões de gênero costumam influenciar tomadas de decisões nas carreiras das mulheres, em especial as compositoras, este tema foi abordado e discutido. Foi comentado que faltou tempo para aprofundar o conhecimento sobre a obra da Denise, o que estimula a rede a pensar num novo encontro com a autora mais para a frente.
  • Outro ponto levantado foi o convite recebido por Eliana, mediante indicação da Valéria, para participar do III Coloquio Ibermúsicas a se realizar no Chile em agosto de 2017. O colóquio homenageará o centenário da compositora chilena Violeta Parra e enfocará questões de gênero na música. Onze países participam da organização Ibermúsicas, e o Brasil é um deles. Eliana vai basear sua fala no evento em sua experiência pessoal de pianista, na sua pesquisa sobre compositoras latino-americanas, e sobre a rede Sonora e sua contribuição para dar visibilidade à produção musical das mulheres.
  • Eliana trouxe também para o grupo a problemática de realizar uma serie de recitais com obras de mulheres, tarefa que faz parte de seu Pós-Doc. Este projeto, proposto no seu plano de atividades para a ECA-USP, pretende envolver alunos e professores em torno do repertório composto por mulheres. Porém, tem encontrado resistência para ocupar espaços físicos e simbólicos em que os concertos possam se efetivar. A Sonora se propôs a pensar em como apoiar seu projeto, organizando um recital específico com composições de mulheres a ser feito, por exemplo, no mês de  setembro.

Sobre os textos a serem lidos e discutidos para o encontro de hoje com a temática “organizações e estruturas de redes”

Como não foram definidos textos para hoje, a não ser a sugestão do Davi enviada anteriormente por e-mail e outras enviadas pela Tania no próprio dia do evento, o GE sobre organizações e estruturas de redes não teve possibilidade de acontecer. Ainda assim, houve uma discussão sobre o funcionamento da Sonora, sobre o núcleo que se reúne na USP, sobre o apoio do NuSon a este grupo cedendo sala e equipamentos e sobre como funciona o relacionamento deste núcleo com as(os) integrantes de fora de SP.

  • O 13º Fazendo Gênero foi citado como um momento de possibilidade de contato presencial entre membrxs da rede que vão para o congresso em Florianópolis.
  • Foi discutida e incentivada a ideia de que membrxs da Sonora que participam de fora de SP tomem a iniciativa de organizar atividades das quais todxs possam participar online. Foi sugerida a realização de um curso a ser ministrado pelo grupo da Camila, Tania e Isabel sobre feminismos e feminismo na música. Outras atividades, como a realização de edições da Encontra Sonora em João Pessoa ou em Florianópolis, foram pensadas.
  • Foi mencionado o desejo de propor que haja transmissão do Simpósio proposto pela Sonora no Fazendo Gênero, via hangout.

Próxima reunião – GE sobre organização e estrutura de redes feministas

26/6 – Foram selecionados os seguintes textos para discussão:

  1. “Por que a auto-organização é importante para as mulheres? ”Disponível em: http://blogueirasfeministas.com/2015/07/por-que-a-auto-organizacao-e-importante-para-as-mulheres/
  2. “O desafio feminista para organizações políticas tradicionais” Disponível em: http://www.insurgencia.org/o-desafio-feminista-para-organizacoes-politicas-tradicionais/
  3. “Feminismos web: linhas de ação e maneiras de atuação no debate feminista contemporâneo” Disponível em: https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/15c56839c2764d4c?projector=1

Mariana ficou de mandar um email com os textos e links dos mesmos na lista.

Ata da 20ª Reunião – GE – (20/06/2016). Texto: “A espessura da sonoridade – entre o som e a imagem”, de Rodolfo Caesar

Tópicos

  • O Grupo de Estudos deste encontro foi dedicado à preparação da próxima entrevista da série Vozes com a compositora Valéria Bonafé, marcada para o dia 27/6. O texto lido e discutido foi indicado previamente por Valéria, juntamente com outros de sua própria tese de Doutorado – assunto que ela abordará na entrevista. Ela sugeriu também algumas peças musicais para escuta. Durante o encontro foi ouvida a composição Trem Pássaro, da brasileira Denise Garcia.
  • Valéria contou que escolheu o texto “A espessura da sonoridade – entre o som e a imagem”, de Rodolfo Caesar, entre vários que ela estudou sobre o tema durante seu Doutorado na ECA-USP. Ela explicou que a ideia de som passou a ser bastante instrumentalizada nos últimos anos, tornando-se muito abstrata. No texto selecionado, Caesar discute o afastamento de uma noção mais holística do fenômeno sonoro – que separa, por exemplo, som e imagem – colocando uma perspectiva mais abrangente e menos operacional.
  • Caesar critica o uso de uma técnica de desestruturação do som como legitimação de uma teoria voltada para as qualidades deste som. O autor chama atenção para a existência de duas forças no som: uma centrípeta, que se volta para o seu “miolo”, e outra centrífuga, que se coloca abrangente e com potencial de superar barreiras.
  • Entre outros aspectos discutidos após a leitura do texto de Caesar, um foi o fato de que escutar é formar imagens. O que se tem observado é uma separação da prática da escuta e da formação de imagens. Em nome da chamada “escuta reduzida”, bastante disseminada por Pierre Schaeffer, as sonoridades são filtradas de seu contexto e das emoções ou ideias que possam sugerir. Foi concluído que este procedimento é feito em nome de um protecionismo à própria arte musical.
  • Foi comentada também a existência de uma estética que evita que os títulos das obras remetam-se a assuntos que extrapolem a própria música. Os títulos de músicas eletroacústicas são, majoritariamente, assépticos, como Chorus n. tal, Estudo n. tal, etc. Esta postura pretende criar uma redoma inacessível em torno da criação musical, para dar-lhe status de ciência. Este procedimento hierarquiza os tipos de composição, como se algumas fossem mais “cerebrais” ou estruturadas que outras.
  • Caesar questiona a contraposição dos termos som e imagem, que para ele são a mesma coisa. Embora o som seja ligado à percepção – por todos os sentidos – os musicólogos se empenham em reduzi-lo a uma escuta timpânica.
  • Assim como Caesar, outros artistas se surpreendem com a separação do som da imagem. A compositora Saariaho, que tem trabalhos focados na amplitude sonora, diz que também não separa som e imagem.
  • A compositora Denise Garcia tem um artigo chamado “O som por metáforas”, em que ela fala de sua obra e da importância da metáfora no seu processo de composição. Para Denise, as palavras estimulam a criação. Em seu artigo ela conta da experiência e dos estímulos para sua peça Trem Pássaro.
  • O encontro terminou com a audição de Trem Pássaro, de Denise Garcia.

 

Tarefas para a última semana de junho

  • Foi combinado que a Eliana enviaria uma chamada à lista para ver quem quer participar do Sonora Compositoras entre 26 e 30/7/2016
  • Foi sugerido colocar a Sarah em contato com a Larissa para combinar apresentação (performance) no festival Sonora Compositoras
  • Ficou combinado que a Eliana elaboraria e lançaria perguntas à lista para estruturar uma fala na mesa de discussão sobre “a mulher compositora na indústria cultural” no festival Sonora Compositoras

 

Planejamento da próxima reunião – Série Vozes – dia 27/06/2016

  • Serie Vozes com Valéria Bonafé