Ata da reunião de 29/10/2018 – Visões com Teca Alencar de Brito

Nesta 9ª edição de Visões, a Sonora recebe Teca Alencar de Brito, Doutora e Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC- SP, Bacharel em Piano e Licenciada em Ed. Artística com habilitação em Música. Professora e pesquisadora no CMU/ECA/USP, Teca criou, há trinta e quatro anos, a Teca Oficina de Música, núcleo de educação musical voltado à formação de crianças, adolescentes, adultos e educadores, em São Paulo, Brasil. Autora de vários artigos e livros, produziu oito CDs que documentam a produção musical de crianças e adolescentes da Teca Oficina de Música. Sobre tudo isso ela conversa com alunas (os) da ECA, convidadas (os) e pessoas da Sonora.

 

Trajetória

Teca contou que iniciou os estudos de música pela prática do piano, ainda criança. Cedo ela percebeu que o estudo rígido e tradicional do instrumento não era o que procurava, nem o que considerava importante para o fazer musical.

Sua professora de piano, por outro lado, deu-lhe liberdade para descobrir e experimentar a improvisação por conta própria, entendeu que a menina tinha condições e curiosidade para ir além do estudo técnico do instrumento.

Teca lecionou em diversas escolas antes de ter a sua. De uma delas foi demitida porque a coordenação disse que a escola não tinha seu perfil. E Teca agradece a este fato, pois em outras escolas encontrou ambientes férteis para desenvolver seu trabalho autoral.

 

Koellreutter

Seu relacionamento com o flautista, educador, agitador cultural e músico em geral foi fundamental. Teca estudou e trabalhou com Koellreutter por muitos anos. Chegou a fazer uma viagem com ele e outras (os) pesquisadoras (os)/músicas (os) para a Índia. Teca participou desta imersão com o mestre, assistindo aos indianos improvisar – o que lhes é culturalmente natural.

 

Oficina de Música

Em sua escola, Teca oferece liberdade para as crianças escolherem que instrumentos querem tocar, como e quando. Ela critica o ensino que impede que as crianças se coloquem, exponham suas ideias, componham suas músicas. O mais importante, segundo ela, é escutá-las, acolher suas contribuições e trabalhar com elas a partir disso.

São processos auto-poiéticos, como ela diz.

 

Espaço de criação

Hoje, Teca crê que esteja havendo um retrocesso muito grande na educação musical. Ainda que professores usem materiais novos, técnicas inovadoras, entre outros, raramente há espaço para a criação. Materiais vem com instruções, roteiros e regras. Desta forma, por mais que materiais e técnicas sejam “modernos”, o processo é arcaico. E isso vem aumentando dia a dia, infelizmente.

O sentido de se fazer música

Crianças fazem música com letra, abrem a boca e saem cantando. Quando a música é criada, Teca aponta o que está ali, cria pontes com o pensamento humano de forma, elementos, estrutura. Teca também grava os (as) alunos (as). Isso é importante, porque as crianças esquecem o que criaram e, frequentemente, modificam o que fizeram.

Nos territórios da educação musical, é preciso abrir espaço e dar tempo para que emerjam as ideias das crianças. E não ouvir com espírito e ouvidos já pré-estabelecidos. O que um entende como música não é necessariamente o que entendem os demais.

 

Exemplos

Teca contou histórias e mais histórias de como surgiram os CDs que ela gravou com as crianças. Mostrou vídeos e fez tocar algumas faixas dos discos de sua escola. Os exemplos, assim como a fala completa de Teca foi compartilhada em tempo real e está disponível no canal da Sonora no youtube. O link da transmissão pode ser conferido na aba “Atividades regulares – Visões” do nosso site.

 

 

 

 

 

 

 

 

Visões “Música, infância e educação: que jogo é esse?” – por Teca Alencar de Brito

Música, infância e educação: que jogo é esse?

A partir de experiências pessoais, abordarei aspectos relativos ao acontecimento musical no curso da infância; à sua presença nos territórios da Educação, bem como, à formação de educadores musicais.

Teca Alencar de Brito

Doutora e Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC- SP, é Bacharel em Piano e Licenciada em Ed. Artística com habilitação em Música. Professora e pesquisadora no CMU/ECA/USP, criou, há trinta e quatro anos, a Teca Oficina de Música, núcleo de educação musical voltado à formação de crianças, adolescentes, adultos e educadores, em São Paulo, Brasil. Autora de vários artigos e livros, produziu  oito CDs que documentam a produção musical de crianças e adolescentes da Teca Oficina de Música.

Ata da reunião de 17/09/2018 – Visões com Carô Murgel

“Cartografias da canção feminina: compositoras brasileiras no século XX”

Carô Murgel é cantora, historiadora, Doutora em História Cultural e Pesquisadora Colaboradora do Depto. História IFCH/Unicamp. Sua pesquisa de Doutorado foi orientada pela Prof.a Margareth Rago e enfocou o gênero na canção brasileira.

Carô começou sua fala explicando a diferença entre gênero e sexo: o 1º é uma construção social, um discurso sobre as mulheres, e isso se nota muito claramente na canção popular. Outra construção é este abismo entre a música popular e a erudita, cuja linha, na canção principalmente, é bem tênue. A pesquisadora conta que as compositoras lidam mais livremente entre as duas vertentes. Justamente porque nada disso é natural, é tudo artificial. As mulheres e seus instintos, tudo é exacerbado, além do que é, de fato, inventado. Até no movimento operário a maior parte era composta por mulheres. Mas nos referimos ao movimento operário, no masculino.

Mulheres públicas não eram vistas como mulheres de bem, eram tidas como prostitutas, enquanto homens públicos podiam e podem ser deputados, ministros, diplomatas e o que mais quiserem.

O apagamento das compositoras

A ciranda nasce com as mulheres, que esperavam seus maridos na praia com as crianças. O samba de roda também. A umbigada também era uma dança majoritariamente feminina: uma dançava sozinha até dar uma umbigada em outra mulher da roda, que entrava e dançava com ela. Somente quando elas se cansavam os homens entravam.

Nos séculos XVIII e XIX as mulheres criavam coletivamente os cantos de trabalho. O samba, por exemplo, chega ao Rio de Janeiro pela voz das negras que vinham do Recôncavo Baiano e de outras localidades. Tia Ciata é deste tempo, e foi uma das tantas mulheres esquecidas/apagadas no registro histórico musical. Carô encontrou pistas desta e de outras compositoras em artigos de jornal e até em partituras de acervos dentro e fora do Brasil.

O 1º rock brasileiro foi composto em 1957 por Carolina Cardoso de Menezes e se chamou “Brasil Rock”. Outro exemplo de apagamento é a Lina Pesce, autora de “Bem-te-vi atrevido”, de 1942. Esta peça foi citada por Hermeto Paschoal como sendo da autoria de Pixinguinha!

Rude franqueza

Alda Garrido, compositora nascida na virada do século, canta uma obra em resposta ao que se falava das mulheres. De autoria desconhecida, “Rude franqueza” fala que o homem, para ser bom, deveria nascer morto. Esta letra chocou a sociedade, embora existam inúmeras composições em que homens expressam o desejo de matar a mulher.

O apagamento das mulheres como autoras fica nítido no caso de Carmen Miranda, parceira de Pixinguinha na canção que fala “Comigo não, violão”, cuja autoria é questionada por seu biógrafo Ruy Castro. Carô conta que não há um único documento que negue a criação de Carmen Miranda, então por que a dúvida?

Ambiente familiar

Os pais de Carô a criaram ouvindo música. Ela observa que isso é raro atualmente, filhos e filhas não ouvem música com a família. Cada um tem seu fone, sua fonte, seu aparelho. Esta também é uma razão para seu conhecimento de obras da 1ª metade do século XX. “Melodia Sentimental”, de Dora Vasconcelos e Heitor Villa-Lobos, era uma das músicas preferidas de seu pai. Dora fez várias letras para canções de Villa.

Inezita Barroso, intérprete muito conhecida, lançou um disco em 1958 somente com obras de mulheres. Ela gravou, por exemplo, “Maria Macambira”, de Babi de Oliveira e Orádia de Oliveira. A música conta a história de uma lavadeira que morre no mar, “lavando as roupas de Yemanjá”.

Almira Castilho, parceira de Jackson do Pandeiro entre 1955 e 1967, teve a autoria de “Chiclete com Banana” questionada pelos historiadores. Mas o fato é que, após a dupla se separar, Jackson compôs um total de 4 obras.

Aylce Chaves, parceira de Paulo Marques na canção “Lama”, reclama na mesma o peso de ser difamada, de ter seu nome “na lama”. Ela é uma das tantas compositoras que não tem registro biográfico disponível.

Assinando em segredo

Muitas compositoras colocavam pseudônimos masculinos para vender suas peças. Isso dificulta mais ainda encontrar suas trajetórias. Carô conta que também há muitas mulheres cuja obra ficou na gaveta. Sua própria avó é uma delas. A pesquisadora fala que compilou mais de 7.000 compositoras em seu trabalho, até que decidiu encerrar temporariamente a investigação a fim de divulgar os resultados. Ela espera que mais pessoas deem continuidade e ampliem sua pesquisa, para o que disponibiliza informação online e ainda se oferece para enviar material impresso a interessadxs.

1 por cento

No encontro de hoje, Carô Murgel mostrou e dissertou sobre, em média, 70 compositoras. Isso corresponde a 1% do total de mulheres incríveis que ela encontrou pelo caminho. Ela conta que, atualmente, há uma profusão de compositoras advindas das igrejas. Muitas delas, embora não se possa generalizar, utilizam a música para incentivar suas pares a se submeterem ao patriarcado em pleno século XXI.

Acervos

Os acervos estão sob risco, por falta de recursos e descaso administrativo. Carô recomenda que interessadxs procurem editoras responsáveis pela publicação dos discos e livros para saber sobre as compositoras. Outra fonte é o ECAD, de direitos autorais. Ela teme que os arquivos existentes possam se perder como museus que sofreram avarias por falta de manutenção.

Famílias e direitos autorais

Muitas famílias detêm direitos de compositoras e dificultam a divulgação de suas obras. Algumas vezes o dinheiro serve de desculpa para que não se divulgue a artista, sua vida, suas escolhas. As compositoras vivas, ao contrario, em geral são generosas e gostam de saber do interesse alheio por sua produção criativa. Ainda assim, Carô aponta a necessidade das mulheres de pesquisar as compositoras. Ela diz que nós temos que fazer isso, ninguém o fará no lugar das mulheres.

Mulheres interrompidas

As mulheres já iniciam suas carreiras com sobrecarga. Elas têm, tradicionalmente, que interromper sua pesquisa, seu trabalho ou seu descanso para atender à família, à comunidade, cuidar. De acordo com Carô Murgel isto as faz cultivar uma linguagem, por vezes, fragmentada. Há um interesse político em manter as mulheres em posição de submissão, para conservar os privilégios masculinos.

A revolução virá pelas mulheres

Apesar de estarmos passando por tempos sombrios na cultura e no país, a pesquisadora é otimista em relação à atuação das mulheres e seu potencial de mudança. Ela entende que tudo é política, o posicionamento das mulheres e suas conquistas não podem ser apagados.

Visões “Música e Mulher na América Latina: Relatos sobre o III Colóquio Ibermúsicas Chile” por Eliana Monteiro da Silva

Visões “Música e Mulher na América Latina: Relatos sobre o III Colóquio Ibermúsicas Chile” por Eliana Monteiro da Silva

No dia 02/10/2017, tive a alegria de participar da série Visões para contar minha experiência como convidada e representante do Brasil no III Coloquio Ibermúsicas Chile, em Santiago. Comemorando o centenário da cantautora chilena Violeta Parra, o colóquio abordou a temática “Música y mujer em Iberoamérica – haciendo música desde la condición de género”.

Entre as questões colocadas, discutiu-se “as dificuldades e os estereótipos que a mulher tem enfrentado ao querer se profissionalizar no campo da música; de que maneira o entorno social, cultural e político tem atuado para criar ou resolver tais dificuldades; como a mulher tem se situado no cânone masculinizante da composição, da música erudita ao rock”; entre outros. Participaram do debate representantes dos 11 países que compõem o Ibermúsicas, entre intérpretes, compositoras, musicólogas, antropólogas e sociólogas – além do organizador e musicólogo Juan Pablo González e do diretor do Ibermúsicas José Julio Díaz Infante. Somente o Chile contava com mais de uma representante.

Para contar sobre esta experiência, dividi meu relato em duas partes, que são:

  • Parte 1 – Da minha participação no III Colóquio Ibermúsicas Chile
  • Parte 2 – Das demais participantes latino-americanas

Na parte 1, contei que minha conferência se intitulou “Compositoras brasileiras no contexto da música erudita: uma história de luta contra a invisibilidade”. O objetivo foi mostrar a atuação das compositoras brasileiras na música erudita e sua luta por reconhecimento e visibilidade.

Comecei apontando que, do meu lugar de fala como intérprete, em algum momento constatei a negação da produção destas compositoras pelos estabelecimentos de ensino de música e pelo mercado de concertos e gravações, uma vez que há muito tempo estudava e divulgava obras variadas sem jamais ter tocado uma só composição feita por mulher. Isto me alertou para a naturalização das questões de gênero no ensino do instrumento, assim como na teoria musical, análise, etc.

Conforme me inseri no ramo da pesquisa acadêmica fui descobrindo compositoras incríveis, que passei a divulgar em recitais do meu duo dedicado a este fim com a cantora Clarissa Cabral, o Duo Ouvir Estrelas, em artigos, capítulos de livros e no livro “Clara Schumann: compositora x mulher de compositor”. Fruto desta investigação são as 20 compositoras brasileiras que mostrei no colóquio, nascidas entre 1847 e 1987.

Estas guerreiras, apesar do ambiente adverso, participaram da construção de uma música com características próprias do Brasil e, consequentemente, da América Latina. São elas: Chiquinha Gonzaga, Branca Bilhar, Dinorá de Carvalho, Helza Cameu, Cacilda Borges Barbosa, Eunice Katunda, Lina Pires de Campos, Esther Scliar, Kilza Setti, Maria Helena Rosas Fernandes, Jocy de Oliveira, Marisa Rezende, Vania Dantas Leite, Nilceia Baroncelli, Ilza Nogueira, Denise Garcia, Silvia Berg, Silvia de Lucca, Valéria Bonafé e Patricia de Carli. Poderia mostrar muitas mais, não fosse o tempo restrito. O recorte que escolhi abarcou a maior quantidade possível de estilos, técnicas, locais de nascimento e instrumentos utilizados.

A última parte da minha fala no colóquio foi dedicada a ações afirmativas empenhadas em mudar o cenário conservador e machista da música erudita no Brasil, entre as quais destaquei as atividades realizadas pela nossa rede “Sonora – músicas e feminismos”.

A participação do violonista Cauã Canilha tocando “Ponteio e Tocattina” de Lina Pires de Campos deu um charme especial a esta edição do Visões!

Sobre as demais participantes da América Latina, que relatei na Parte 2, colocarei aqui um breve resumo de suas conferências:

Romina Dezillio (Argentina)“Las primeras compositoras profesionales de música académica en argentina: logros, conquistas y desafíos de una profesión masculina”

Em seu trabalho, Romina apresentou algumas das primeiras compositoras eruditas que se profissionalizaram na Argentina, nascidas entre o fim do século XIX e início do XX, e que atingiram certa visibilidade na década de 1930. A autora discutiu a recepção de suas obras pela imprensa, que lhes atribuiu como qualidade a “sinceridade” e conferiu a condição de “adorno” às suas práticas musicais.

Yael Bitrán Goren (México)“De la invisibilización al canon: mujeresen la academia, el rock y la sala de concierto en méxico en la segunda mitad del siglo XX”

Yael enfocou a presença sólida de mulheres na música de concerto e no rock mexicano da segunda metade do século XX, apesar do caráter machista inerente a estes ambientes artísticos.  Por meio de entrevistas, buscou responder às perguntas: em que medida foram superadas as dificuldades das mulheres em profissões eminentemente masculinas como a composição destas vertentes musicais? Como são vistas estas compositoras frente ao cânone masculino? “

Soledad Castro Lazaro (Uruguai) “Murgas de mujeres (estilo uruguayo) en América Latina”

A autora falou sobre a murga uruguaia, manifestação musical e carnavalesca na qual, em mais de cem anos de historia, somente quatro grupos de mulheres participaram do carnaval oficial. Por meio de um breve recorrido histórico da murga uruguaia com una perspectiva de gênero, Soledad questionou as razoes da invisibilização e exclusão da mulher durante todo o século XX.

Ana María Arango Melo (Colômbia) “Entre arrullos, chumbes y sanpachitos. Cuidados de la primera infancia y estéticas sonoras en los afrochocoanos de Colombia”

A conferencia de Ana Maria pretendeu visibilizar uma serie de praticas e rituais das mães e avós do Pacifico Colombiano em torno das crianças em sua primeira infância. Ela mostrou que a forma como estas concebem os corpos, os sons e o movimento denota uma enorme relação destas praticas e estéticas com a vida musical desta população, além de apontar sua visão de mundo.

Susan Campos Fonseca (Costa Rica)“Artistas electrónicas en Costa Rica: un estudio de filosofía tecnológica feminista”

Susan analisou os estudos dedicados às compositoras, artistas sonoras e cantautoras na Costa Rica, procurando evidenciar como a historia da música ocidental, a historia da música do século XX e a historia da música latino-americana constroem narrativas que se introduzem na historiografia costarricense. Ela apontou que tais narrativas se refletem na formação em composição musical e na educação básica em geral, perpetuando métodos herdados da filosofia e da historia eurocêntrica, com suas ideias de civilização, cultura, obra, autor/a e cânone. Segundo a pesquisadora, é preciso descolonizar a pesquisa e repensar as propostas metodológicas e teóricas, sob risco de mantermos os mesmos paradigmas que indicam o que merece ser estudado e o que não.

Lorena Valdebenito (Chile) “Creación musical femenina en Chile: canon, estereotipos y autorias”

Lorena se propôs a rever a maneira como a academia tem abordado a criação musical feminina no Chile, enfocando, principalmente, o surgimento da cantautora como figura chave na formação de cânones na cena musical popular que se inicia no final dos anos ‘90 e inicio de 2000.

Karla Lamboglia (Panamá) – “La mujer en la música panameña: un retrato contemporâneo”

A autora refletiu sobre a situação atual da mulher no ambiente musical panamenho, segundo diferentes estilos e manifestações. Ela apontou a condição particular do Panamá, pela convivência de seus habitantes nativos com imigrantes norte-americanos do sexo masculino que vão trabalhar na zona do canal. Em vista deste cenário, evidenciou as dificuldades de fazer música sendo mulher, mas, também, buscou apontar soluções possíveis e sustentáveis para tornar o panorama musical mais balanceado e equitativo.

Romy Martínez (Paraguai) – “La mujer paraguaya: roles y desafíos como profesional de la música”

Romy buscou ilustrar alguns dos papéis desempenhados por artistas paraguaias como profissionais da música na atualidade, por meio de biografias e relatos de mulheres nascidas entre as décadas de 60 e 80 que atuam dentro ou fora de seu país como instrumentistas, cantoras, compositoras e/ou docentes. A própria autora, que é cantora e pesquisadora, participa dos relatos.

Sarah D. Yrivarren (Peru) – “Construcción y representación de discursos de femineidad en la escena “metalera” de Lima”

Sarah pesquisa os conflitos que afrontam mulheres em comunidades eminentemente masculinas como a metaleira, corroborados pelo formato conservador da sociedade peruana. Sua investigação agrega observação em bares “metal”, concertos, shows e feiras de discos, traçando um perfil das formas de organização e comunicação destes grupos.

Ailer Pérez Gómez (Cuba) – “Mujer y música en Cuba: caminos profesionales”

De acordo com Ailer, o enfoque de gênero não é ainda uma perspectiva sistemática na pesquisa sobre música em Cuba, embora tenha crescido nos últimos quinze anos com a crescente inserção de mulheres em trabalhos associados à música. Esta prática vem sendo mediada pelas particularidades do sistema político-social vigente no país, que tem fomentado um espaço de formação profissional em música de alto nível, e, em essência, inclusivo, tanto no âmbito da formação quanto do desempenho profissional.

Daniela Fugellie (Chile)“Leni Alexander (1924-2005) o la migración perpetua”

Daniela falou sobre a perspectiva de gênero na imigração para o Chile no século XX, enfocando a compositora Leni Alexander, nascida na Alemanha e residente no Chile desde os 15 anos. A autora ressaltou a dificuldade de se obter dados sobre casos como este, ao qual se soma o fato de que Leni era judia, de esquerda e fazia parte da comunidade musical de vanguarda. Entretanto, foi uma das poucas compositoras a se destacar na década de 1950.

Marisol Facuse (Chile)“Música, género e inmigración: carreras musicales de mujeres inmigrantes latinoamericanas en Chile”

Marisol também investiga as comunidades imigrantes no Chile, com atenção especial ao período do retorno à democracia ao país após décadas de ditadura, no século XX.  A autora procurou compreender a influência das práticas musicais nas identidades e sociabilidades, promovendo processos de mestiçagem cultural.

  • Algumas conclusões:

A convivência intensa de 4 dias de colóquio fez das participantes um grupo carregado de intimidade e cumplicidade. O fato de que voltaríamos para nossos países de origem nos deu leveza e liberdade para que nos abríssemos sem reservas e externássemos nossas opiniões de forma produtiva.

O sentimento de ser mulher e latino-americana também nos fez, de certo modo, um pouco subversivas. Isto ficou mais evidente quando participamos como ouvintes do Colóquio Violeta Parra – que incluía convidadas e convidados do chamado Primeiro Mundo, ou, os ”colonizadores”.

  • Outras conclusões (não tão boas):

O fato de estarmos entre mulheres para falar da exclusão da mulher na música (sendo que o convite não se restringia ao gênero feminino) evidenciou a questão do desinteresse dos homens em pesquisar o assunto.

Por mais que os organizadores – homens – se empenhassem em demonstrar o contrário, não houve espaço nem tempo para darmos qualquer encaminhamento às questões pautadas durante o evento.

O primeiro momento musical realizado no intervalo das palestras foi apresentado por um grupo de 4 folcloristas, todos homens, cantando música de homens com letras machistas – típicas do contexto em que foram compostas.

Resta saber se o evento III Colóquio Ibermúsicas Chile ficará isolado do resto do contexto musical, ou se de fato servirá para motivar mudanças na percepção e na atuação da comunidade artística – principalmente a acadêmica.

Alguns vídeos mostrados:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Visões “Música e Mulher na América Latina: Relatos sobre o III Colóquio Ibermúsicas Chile” por Eliana Monteiro (Divulgação)

 

Neste encontro, Eliana Monteiro da Silva vai relatar sua experiência ao participar do III Colóquio Ibermúsicas Chile, no qual representou o Brasil junto a outros 10 países da América Latina. O evento aproveitou o centenário da compositora e intérprete chilena Violeta Parra para pensar a situação da mulher na música em contextos diversos da América Latina. Participaram intérpretes, compositoras, sociólogas e antropólogas. A participação brasileira foi indicada pela FUNARTE.

Cada palestrante apresentou um aspecto da mulher na música de seu país. A fala de Eliana intitulou-se “Compositoras brasileiras no contexto da música erudita: uma história de luta contra a invisibilidade”. Vinte compositoras foram mostradas para dar uma ideia da representatividade da mulher na composição erudita brasileira. A atuação da rede Sonora para romper o cerco de invisibilidade que envolve as musicistas brasileiras em geral, e na composição em particular, foi mostrada na última parte da palestra de Eliana no colóquio.

Ata da reunião de 8/05/2017 – Série Visões com Coletivos da ECA “Visões Coletivas”

“Visões Coletivas”

Esta edição da Série Visões reuniu 3 coletivos da ECA-USP para contar suas experiências e somar forças com a Sonora na empreitada de dar mais visibilidade, abrir espaços e romper barreiras para as mulheres. O primeiro coletivo a se apresentar foi a coletiva Vulva da Vovó, e seguiu-se com o Coletivo da ECA e o CALC – com enfoque no Núcleo Anti-opressão do centro.

Vulva da Vovó

Formada por 11 mulheres e 1 homem, tem foco nas artes cênicas. Têm o feminismo com método, o que inclui participar e montar peças de teatro de autores masculinos com olhar feminista. Feminismo interseccional – gênero, raça e classe – perpassa a poética desta coletiva, fazendo com que elas batalhem para levar as peças a localidades fora do centro onde peças deste tipo tem menos alcance.

Fazem eventos como o Festival Feminista, entre outros, em que divulgam outros braços da coletiva, como a editoração. Este ano será lançada a tradução de um texto de escritora latino-americana. A América Latina está no foco da coletiva.

Outro foco é o ambiente acadêmico, bastante machista e classista. A coletiva percebe o quanto as universidades públicas em geral – e a USP talvez mais do que a UNESP, por exemplo, pelo fato de ter cursos formatados em período integral impedindo alunxs de trabalhar – são hostis a grande parte da população.

Coletivo Feminista da ECA

Surgiu em 2013 durante uma greve da universidade. Criou-se uma iniciativa de empoderamento para discutir questões ligadas ao feminismo e à universidade. Este ano o coletivo está tentando retomar as atividades, uma vez que coletivos em geral estão um tanto desativados pelo viés político que representam.

O coletivo gostaria de reunir mais pessoas da ECA, não só alunas e tampouco de um curso específico. Elas estão preparando uma semana da arte feminista para unir pessoas interessadas no assunto.

Este ano elas fizeram uma intervenção na sala de um professor do curso de jornalismo, autor das fotos divulgadas de D. Marisa no hospital. Elas levaram a bateria da ECA e colaram cartazes sobre falta de ética, machismo e assédios em geral. O professor abriu um processo contra as alunas envolvidas no ato.

Dia 24/5 terá um sarau organizado por elas, entre outras atividades. Foi colocada a necessidade de ter mais integrantes para se envolver com as atividades.

É um coletivo auto organizado que se reúne semanalmente. O objetivo é acolher pessoas de todas as praias, ideias e posicionamentos, desde que tenham interesse em questões feministas.

CALC – Centro Acadêmico Lupe Coltrim

Entre os núcleos do centro há o Núcleo Anti-opressão, criado para proteger pessoas vulneráveis principalmente nos dias atuais. Agem conjuntamente com o Coletivo Feminista da ECA em muitas vertentes, pois as dificuldades são comuns. Elas entendem que o Movimento Estudantil as coloca um tanto quanto de lado e que seu enfoque é machista. Por esta razão se unem e se fortalecem.

A gestão atual iniciou-se em novembro. Tem sido particularmente difícil, desde o fechamento da prainha com grades visíveis e invisíveis. Elas colocam o fato de um aluno estuprador ter sido diplomado como mostra do descaso com as questões de vulnerabilidade das mulheres.

O CALC tem um núcleo de eventos. A Semana Emancipa foi um destes eventos, debatendo questões com pessoas de outras áreas da universidade. Nesta semana elas conheceram a Sonora, uma vez que tinha uma integrante falando da opressão da mulher na música. Também conheceram representantes do feminismo negro, LGBT, entre outras.

Na próxima semana elas tem um evento sobre Comunicação Pública.

Foi levantada a questão da neutralização de questões feministas pelos chamados “esquerdo-machos”, pessoas envolvidas com temáticas ditas “de esquerda” que, de certa maneira, zombam do discurso feminista.

Também foi mencionado o documentário “Precisamos falar sobre assédio”, cuja autora vai fazer, com o CALC, um evento de apresentação e discussão sobre o mesmo.

Debate

Uma integrante perguntou se o CALC já se envolveu com a questão do assédio entre professores e alunxs. Se já fizeram ações para defender o interesse de alunxs a partir de um canal de denúncias. A representante do Núcleo Anti-opressão disse que há iniciativas em andamento, sendo pensadas, mas que é difícil.

Foi perguntado o que é uma denúncia institucional. A mesma representante contou um caso sobre um processo de sindicância em que uma aluna abriu uma queixa e depois desistiu e o caso foi esquecido.

Nas artes cênicas isto é particularmente difícil, porque existe um discurso de que o professor de teatro deve incitar xs alunxs a se soltarem, a liberar o corpo, a “lidar com estas questões”. Neste contexto o assédio segue ocorrendo envolto num véu de “metodologia”.

Foi observado que o liberalismo também vem adotando discursos pseudo-feministas, aproveitando a recepção que o assunto alcança em termos de mercado. Artistas aparecendo mais, editais para criações voltadas ao gênero e outras iniciativas podem maquiar o cerceamento que as mulheres enfrentam o tempo todo da vida.

Foi mencionada a mudança que a USP está vivenciando no sentido de tornar a universidade cada vez mais propícia a pessoas que tem carro, com viés mais elitista. As grades da prainha fazem a comunidade dar uma volta enorme para chegar a certos departamentos da ECA, o que no caso das mulheres pode significar maior vulnerabilidade, principalmente a noite. A possível reforma da “vivência” é outro tema polêmico por não ser uma prioridade. Outras ações seriam mais urgentes e até mais simples, como a compra de lâmpadas para a Praça do Relógio, entre outras.

Uma pergunta relevante foi como estes coletivos atraem integrantes para suas atividades. O Coletivo Feminista já tinha mencionado os saraus, que costumam reunir muita gente.

Foi falado sobre a falta de experiência para lidar com denúncias, que providências tomar, que atitude cabe nestes casos. Muitas mulheres não querem que suas histórias sejam “invadidas”, ainda que seja para fortalecer a causa.

A idade também começa a pesar para algumas integrantes dos coletivos, no sentido de que os ambientes de trabalho demonizam pessoas envolvidas nestas práticas. Algumas apontam que enquanto eram estudantes se sentiam mais livres para agir, e que depois de formadas temem por seus empregos.

O encolhimento dos espaços de convivência estudantil foi apontado como colaborador da dificuldade dos coletivos de atrair pessoas interessadas. Cada vez mais xs alunxs ficam fechadxs na sala de aula. Neste sentido a questão das grades corroboram com o afastamento em geral.

Isto se liga diretamente à questão do produtivismo. Na pós-graduacão, especialmente, alunxs tem muita demanda e ela dificulta outras áreas de atuação.

A questão das cotas foi aventada. O CALC disse que a luta por cotas sempre foi presente, mas ainda não computam muitos resultados favoráveis. O assunto está bem mais pautado, há comissões que representam a pauta, porém ainda não atingiram muitos objetivos práticos. Na música as cotas esbarram no exame de aptidão.

O eurocentrismo também é um cânone arcaico que se perpetua e é excludente. Esta é uma outra batalha a ser travada. A representante da Vulva da Vovó se ofereceu para compartilhar textos latino-americanos para reflexão.

Foi sugerida a ideia de redigirmos um documento coletivamente, propondo as mudanças que foram mencionadas como urgentes neste evento.

De modo geral, todxs ficaram muito felizes com este encontro dxs coletivxs. Houve uma empatia muito grande e aflorou um enorme desejo de atuar coletivamente.

 

 

Visões Coletivas (Divulgação)

 

Sonora convida para mais uma edição da série Visões na próxima segunda-feira, 08/05, às 17h30. Nesse encontro reuniremos três coletivos para falarem de seu funcionamento, pautas, ações e posicionamentos: Coletivo Feminista da ECA, Núcleo Anti-Opressões do CALC e Coletiva Vulva da Vovó. Todos eles estão ligados de algum modo à Escola de Comunicações e Artes da USP, e esse encontro faz parte do desejo de pensar coletivamente as questões de gênero dentro da escola.

O Coletivo Feminista da ECA é uma entidade auto-organizada representativa de todas as Ecanas, alunas e funcionárias. Através de reuniões semanais e debates promovem: rodas de conversas, saraus, atos, oficinas, reviradas feministas e eventualmente estabelecem parcerias com outros coletivos e entidades da USP. Visando sempre o empoderamento feminino e a equidade de gênero dentro e fora da universidade e em demais espaços sociais.

O Núcleo Anti-Opressões do CALC, na gestão 2017, nasce como mais um dos núcleos da organização interna do Centro Acadêmico. Encabeçado por duas diretoras, mas encaminhado por todas as mulheres da gestão, ele surge para impulsionar os já existentes coletivos auto-organizados da ECA e, também, para pensar em iniciativas próprias.

A Coletiva Vulva da Vovó  nasceu em dezembro de 2014 do encontro de pessoas interessadas na produção e difusão da cultura feminista através de um fazer artístico livre, transversal e autônomo. Entre nossas principais ações se destacam  a realização do Festival Autônomo Feminista que terá sua 4ª edição em 2017, e o espetáculo teatral Sobre as Baleias, que estreou em 2016 e trata da luta das Mães de Maio em São Paulo e das Mães e Avós da Praça de Maio, na Argentina.

Visões – “Imagem, imaginário e representações da mulher negra”, com Rosane Borges (Texto)

Captura de Tela 2016-06-08 às 23.19.27No dia 06/06/2016 a rede Sonora recebeu, como convidada da série Visões, a jornalista e pesquisadora Rosane Borges. Rosane é Mestre, Doutora e Pós-Doutoranda no Departamento de Jornalismo da ECA-USP, integra a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra (OAB-SP), a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-SP) e o Conselho Nacional de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (CNPIR) da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).

Além de organizadora e coautora do livro “Mídia e Racismo”(2012), no qual apresenta um capítulo dedicado à discussão da imagem da mulher negra na mídia, possui diversos livros publicados, tais como “Jornal: da forma ao discurso” (2002), “Rádio: a arte de falar e ouvir” (2003) e “Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro” (2004). No encontro com a rede Sonora, Rosane falou sobre um pouco de tudo isso. Contou sua trajetória rumo à construção da própria imagem como cidadã negra num país marcado pela colonização escravocrata, e da luta que assume, dia após dia, para mudar os paradigmas de representação da nossa sociedade. Não é a toa que ela integra todas as comissões citadas, atua como professora de comunicação e jornalismo e escreve no blog da revista Boitempo, entre outras publicações.

Rosane Borges ingressou no Movimento Negro bem jovem. Neste ambiente percebeu que, além das questões racistas, havia mais um obstáculo a transpor, pelo qual haveria de militar: as questões sexistas. Como exemplo, a jornalista aponta os diferentes índices de desenvolvimento humano presentes no Brasil se consideramos a população segundo a raça e o sexo: “Enfocando todo o povo brasileiro, o país fica em 79/80º lugar no panorama mundial. Se for considerada somente a população branca, este IDH sobe para a 38ª posição, similar à de países com alto índice de desenvolvimento. Se considerada somente a população negra, este índice cai para o 100º lugar. E piora muito se olharmos a população feminina negra. Isto mostra a enorme desigualdade econômica, intimamente relacionada ao racismo e ao sexismo”.

Captura de Tela 2016-06-08 às 23.56.39Estas questões estão relacionadas às políticas de representação. Política de representação é o papel que cidadãos assumem de acordo com uma “previsão”. Há a representação jurídica, teatral e política. Alguém representa um outro alguém para uma função determinada.

“Por exemplo, um comercial de margarina. A margarina é um produto barato, não precisa ser uma família de classe média alta para comprar. No entanto, as propagandas mostram pessoas brancas padrão norte europeu, casais heterossexuais, cachorros da raça “Golden” mesas fartíssimas. De onde se pode concluir que o objetivo não é vender margarina, mas sim impor uma imagem do que é ser feliz, do que todos gostariam de ser e ter e do que devemos lutar para conquistar”.

Rosane observa que a população negra significa 51% do Brasil. Espantosamente, a maioria das pessoas não se questiona por que brancos podem passar valores à totalidade da população e negros não. Como a propaganda da margarina. Há uma fração da sociedade que não se vê como racista, não quer o racismo mas não questiona a realidade. Noções como “cabelo ruim” e valores diferenciados entre brancos e negros são assimilados todo o tempo. Isto tem a ver com as políticas de representação.

O poder da representação diz onde as pessoas podem estar ou não. Os que não podem estar são “invisíveis”. A ordem discursiva estabelecida é hierárquica. Ser visível é ganhar existência.

“No campo da música, a mutilação da cidadania é semelhante. O papel do homem e da mulher negra na música erudita, por exemplo, é pratica

mente nulo. A população negra fica restrita ao âmbito do que é considerado popular, ao samba, à capoeira e outras manifestações. Estas não são menores, mas a restrição às outras esferas é injusta e cria um imaginário de que as pessoas negras são limitadas”.

Ao final da conversa, Rosane Borges se definiu como uma pessoa de discurso pessimista, mas de ações otimistas. Ela enxerga os avanços e conquistas obtidas pelos coletivos e movimentos negros, assim como acredita em iniciativas de grupos como a rede Sonora.

Para ela, políticas de ação podem criar contra-representações, como contratar técnicos negros para times de futebol, por exemplo. Se o futebol está “no sangue do negro” por que os negros não podem ser técnicos? Este tipo de postura pode e deve mudar o cenário cotidiano.

 

Ata da 13ª Reunião (06/06/2016) Série Visões com Rosane Borges

Série Visões com Rosane Borges*:  “Imagem, Imaginário e Representações da Mulher Negra”

  • Rosane Borges iniciou o encontro contando que ingressou no Movimento Negro desde cedo, percebendo de imediato as questões sexistas.
  • Para ilustrar os números do racismo e do sexismo no Brasil, citou que o IDH do país o coloca em 79/80º lugar no panorama mundial. Se considerada somente a população branca, este IDH sobe para a 38ª posição, similar à de países com alto índice de desenvolvimento. Já se considerada somente a população negra, o índice cai para o 100º lugar. E piora quantitativamente se considerada somente a população feminina negra.
  • O que isto tem a ver com a imagem da mulher negra, principalmente na mídia? O que esta imagem tem a ver com o mundo da música?
  • Os papeis do homem e da mulher negra na música erudita é praticamente nulo. Sua atuação fica restrita ao âmbito da música popular, do samba, da capoeira e de outras manifestações. Estas não são menores, mas a restrição às outras esferas é injusta e cria um imaginário de que estas pessoas são limitadas.
  • Há uma fração da sociedade que não se vê como racista, mas não questiona a realidade. Ninguém se espanta com a falta de negros e negras na medicina, odontologia ou advocacia. As políticas de representação determinam quais posições negros e negras devem ocupar. Desde cedo aprende-se o que é o “cabelo ruim”, e que brancos e negros têm valores diferenciados.
  • Política de representação é o papel que cidadãos assumem de acordo com uma “previsão”. Há a representação jurídica, teatral e política. Alguém representa um outro alguém para uma função determinada.
  • Rosane cita, por exemplo, um comercial de margarina. A margarina é um produto barato. Não precisa ser uma família de classe média alta para comprar, mas a propaganda mostra pessoas brancas “caucasianas”, um casal heterossexual, um cachorro “Golden” e uma mesa fartíssima. Portanto, o objetivo não é vender margarina, mas sim uma imagem do que é ser feliz, do que todos gostariam de ser e ter e do que devemos lutar para conquistar. A mensagem é clara e define os valores que devem ser perpetuados.
  • A população negra significa 51% do país. Só num país como o Brasil as pessoas não se questionam por que brancos podem passar valores à totalidade da população e negros não. Como a propaganda da margarina.
  • O poder da representação diz onde as pessoas podem estar ou não. Os que não podem estar são “invisíveis”. A ordem discursiva estabelecida é hierárquica. Ser visível é ganhar existência.
  • Rosane diz que é preciso implodir o imaginário. Não basta ter boa intenção. É preciso abrir mão do privilégio de ser branco. É preciso abrir mão do privilégio de ser homem. É preciso dar um passo atrás, mudar as normas que atribuem reconhecimentos diferenciados.
  • Sobre o negro há um aprisionamento de imagem. Esta imagem antevê uma representação do que seria ser negro.
  • As pessoas não se comovem pelos negros. Do ponto de vista da visibilidade, negros, LGBT, e outras minorias não são consideradas humanas. O número de mortes de jovens negros não diz respeito à comunidade em geral, não aparece nos noticiários e não comove como deveria.
  • Como mudar esta realidade? Rosane propõe políticas de ação para criar contra-representações. Como contratar técnicos negros para times de futebol, por exemplo. Se o futebol está “no sangue do negro” por que os negros não podem ser técnicos? Este tipo de postura poderia mudar o cenário cotidiano.
  • Finalmente, no campo da música Rosane aconselha a pesquisa das raízes da música sul-americana e mesmo da europeia, onde há vários indícios da passagem de negros e negras. Também não se pode imaginar os EUA sem negros, sem o jazz, entre outros estilos. O tango tem raízes negras. Há diversos instrumentos também, não só de percussão.

*Rosane Borges é Jornalista, Mestre, Doutora e Pós-Doutoranda no Depto. de Jornalismo da ECA-USP. Integra a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra (OAB-SP), a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-SP) e o Conselho Nacional de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (CNPIR) da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial). Possui diversos livros publicados, entre eles: Jornal: da forma ao discurso (2002), Rádio: a arte de falar e ouvir (2003) e Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004).

 

Planejamento da próxima reunião – interna – dia 13/06/2016

  • Rosane Borges recomendou a leitura do texto “A partilha do sensível”.

Visões – “Imagem, imaginário e representações da mulher negra”, com Rosane Borges (Divulgação)

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Sonora convida para mais uma edição da série Visões na próxima segunda-feira, 06/06, às 17h30. Nesse encontro a jornalista e pesquisadora Rosane Borges falará sobre sua trajetória profissional, os desafios e conquistas, as narrativas que tratam da mulher negra e suas representações pela mídia, e sua atuação, enquanto mulher, em instituições voltadas à igualdade racial.

Rosane BorgesRosane Borges é jornalista, pós-doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, integrante do grupo de pesquisa Midiato (ECA-USP) e professora do Curso de Especialização do Celacc (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação da USP). Foi coordenadora nacional do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra (CNIRC) da Fundação Palmares, órgão do Ministério da Cultura, e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde integrou o corpo docente do mestrado em Comunicação Visual. Coordenou a Revista Nguzu (NEAA-UEL) e escreve regularmente nos portais de notícias “Obsevatório da Imprensa”, “Geledés” e “Áfricas”. Integra a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra (OAB-SP), a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-SP) e o Conselho Nacional de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (CNPIR) da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial). Possui diversos livros publicados, entre eles: Jornal: da forma ao discurso (2002), Rádio: a arte de falar e ouvir (2003) e Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004).