GE – Leitura e discussão sobre o texto “A Tirania das Organizações sem Estruturas”, de Jo Freeman

O termo ‘Organizações sem Estruturas’ foi utilizado por Jo Freeman para referir-se ao formato dos primeiros grupos feministas que recusavam as superestruturas de poder, a hierarquia e o controle externo, características associadas a grupos masculinos. A ausência de estrutura definiu o modo de agir destes grupos pioneiros, para quem a conscientização, as discussões, o agregar e recepcionar novos membros eram os objetivos principais.

Segundo Freeman, os problemas começaram a aparecer quando, passada a euforia inicial, tais grupos quiseram fazer outras atividades e tecer novos projetos. Perceberam então que a falta de estrutura limitava suas ações, e que estruturar-se não significava engessar-se.

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Jo Freeman passou a não acreditar na eficiência de grupos sem estrutura. A autora entendeu que as mesmas podiam ser mais ou menos flexíveis, mas que sempre existiriam. O que aconteceria num grupo sem estrutura é que alguns controlariam as regras e outros não saberiam bem qual seria seu funcionamento, mas sentiriam que algo estava acontecendo ali.

Segundo a autora, para que o grupo ofereça oportunidades de inclusão, as regras devem ser claras e todos devem conhece-las. O grupo informal favorece a criação de elites, ou, o poder de grupos menores sobre grupos  maiores.

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De acordo com Freeman, elites são pequenos grupos de pessoas que influenciam mais do que outras em determinados grupos. Esta autoridade é percebida pelos demais membros, que passam a se comportar de acordo com esta noção. Todos sabem a quem devem ouvir mais atentamente e de quem será a palavra decisiva para a tomada de atitudes.

Os grupos de elite dentro de determinados grupos geralmente são amigos também fora deste contexto. Estabelecem comunicação à parte do que ocorre nos encontros do grupo. Pode haver um ou mais grupos de elite num grupo  maior, e eles podem se rivalizar pelo poder. Por sua vez, se o grupo for estruturado os outros integrantes poderão escolher membros para representa-los e dar-lhe sugestões de conduta, o que é saudável.  O pré-requisito para ocupar cargos de poder deve estar baseado nas características da personalidade e disponibilidade de tempo de quem se candidata.

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Um dos perigos da falta de estrutura é dar poder a quem não o merece, apenas porque se gosta da pessoa. Isto não tem maiores consequências quando o grupo não se lança a projetos maiores, mas atrapalha num segundo estágio do grupo.

Grupos inestruturados são bons para que as pessoas se abram sem reservas e falem de suas questões, mas não para fazer coisas acontecerem. A falta de estrutura não impede o grupo de divulgar suas ideias, mas dificulta a tomada de atitude para coloca-las em prática.

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Alguns princípios são considerados úteis por Freeman para a estruturação democrática de um grupo:

  1. Delegação, por meios democráticos, de autoridade específica a indivíduos específicos para tarefas específicas. Se pessoas são escolhidas para uma tarefa, preferencialmente após manifestarem um interesse ou vontade de fazê-la, elas assumem um compromisso que não pode ser facilmente ignorado.
  2. Distribuição da autoridade entre tantas pessoas quanto possa ser razoavelmente possível. Isso oferece a muitas pessoas a oportunidade de ter responsabilidade por tarefas específicas e dessa forma aprender habilidades específicas.
  3. Rotação de responsabilidades e tarefas entre as pessoas, para que ninguém se aposse de tal ou qual atividade.
  4. Difusão da informação a todos e acesso aos recursos do grupo.

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Sobre a autora

Jo Freeman nasceu em Atlanta (Georgia), em 1945, e cresceu em L.A., Califórnia. É ativista, cientista política, advogada e escritora. Formou e uniu-se a vários grupos feministas na década de 1960 e escreveu sobre as dificuldades dos mesmos, tanto internas (rivalidades, disputas de poder) quanto externas (reconhecimento, campo de ação).

Alguns de seus livros são “Women: A Feminist Perspective” (Mayfield Publishing Co., antiga National Press Books), que rapidamente se tornou referência para estudos feministas, e sua dissertação “The Politics of Women’s Liberation: A Case Study of an Emerging Social Movement and Its Relation to the Policy Process” (Longman Inc. after purchase from David McKay Co.), que recebeu prêmio de $1,000 como o melhor livro acadêmico sobre mulher e política.

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