Manifesto por Mayara no congresso da ANPPOM

por Rede Sonora no XXVII Congresso da ANPPOM 2017 – texto escrito por Eliana Monteiro da Silva e lido por Ísis Biazioli

 

A rede “Sonora – músicas e feminismos”, vêm apresentar seu profundo pesar e consternação frente ao assassinato brutal da violonista e pesquisadora Mayara Amaral, ocorrido no dia 24 de julho de 2017.

Mayara era nossa colega, parceira de trajetória, professora e musicista dedicada à pesquisa do repertório, para seu instrumento, composto por mulheres. Com artigo sobre o assunto aprovado neste Congresso, esta jovem de 27 anos faria também uma performance, em que ampliaria nosso conhecimento e nos encantaria com obras pouco ou nada conhecidas do público em geral. 

Tal desconhecimento merece destaque neste documento por reafirmar o descaso, enraizado em nossa sociedade, à necessidade das mulheres de se expressarem e de serem ouvidas, respeitadas, levadas em consideração.

Mayara Amaral estava engajada nesta luta de maneira responsável e profissional, interpretando com alegria e fidelidade as autoras que divulgava, também, em sua produção bibliográfica. 

Embora sua presença física não esteja mais entre nós, pleiteamos que seu destino trágico possa impedir futuras barbaridades como a de que foi vítima, mediante ações afirmativas de combate à vulnerabilidade das mulheres na música e na vida – especialmente ao feminicídio-, bem como exigindo respeito e justiça nas investigações. 

Atenciosamente

Sonora – músicas e feminismos

Homenagem-manifesto sonoro para Mayara Amaral

O dia 24 de julho de 2017 ficará para sempre marcado na mente, corpo e alma de muitas mulheres brasileiras, especialmente as mulheres da música. Este foi o dia em que Mayara Amaral, violonista e pesquisadora da obra violonística criada por mulheres foi vítima de um feminicídio. Mayara era nossa colega na música, parceira de trajetória, professora e musicista dedicada à causa feminista na música. Quando foi brutalmente assassinada, se preparava para apresentar trabalho escrito e performance no Congresso ANPPOM 2017, evento de grande importância para a comunidade musical acadêmica.

A Rede Sonora – músicas e feminismos se empenhou em manifestar sua consternação através de diferentes ações de diferentes participantes, feitas em nome da Rede, como o texto “Pela Memória de Mayara Amaral, pelas vidas das mulheres na música e no mundo: #NenhumaAMenos” Pela Memória de Mayara Amaral, pelas vidas das mulheres na música e no mundo: #NenhumaAMenos”, de Camila Durães Zerbinatti, publicado pelo Portal Catarinas; o texto de Eliana Monteiro da Silva, que reivindica respeito e seriedade nas investigações sobre o crime hediondo que ceifou a vida de Mayara, assim como atenção para as diversas violências de gênero contra as mulheres, como o feminicídio, lido durante a performance colaborativa da Rede no Congresso da Anppom, e, a peça sonora que aqui disponibilizamos.

“Que sua partida não seja silêncio”

 

Esta peça sonora foi criada a partir de um convite da coordenação do citado Congresso da ANPPOM de 2017, na pessoa do professor Alexandre Zamith Almeida, para que a Rede Sonora realizasse uma performance artística no horário em que seria a apresentação da violonista Mayara Amaral no congresso. A performance foi realizada de forma colaborativa onde, a partir de um convite amplo, as participantes da rede Camila Zerbinatti, Carolina Andrade, Eliana Monteiro da Silva, Mariana Carvalho, Tania Neiva e Valeria Bonafé gravaram áudios relacionados com o feminicídio ocorrido com Mayara.

Este material foi processado por Isabel Nogueira, que também tocou sintetizadores, e transformou-se em uma criação sonora de 20 minutos, da qual esta peça é uma versão reduzida.

No momento da performance no congresso, foram realizadas improvisações por Mariana Carvalho, Flora Holderbaum e Isabel Nogueira sobre a peça sonora. Isis Biazioli leu o texto de Eliana Monteiro da Silva, que está disponível no site da Rede Sonora.

 

 

Áudios e vozes: Camila Zerbinatti, Carolina Andrade, Eliana Monteiro da Silva, Mariana Carvalho, Tania Neiva e Valeria Bonafé.

Sintetizadores e criação sonora: Isabel Nogueira

 

 

 

Ata da reunião de 07/08/2017 – primeira do 2º semestre

Pauta

A primeira reunião do 2º semestre foi dedicada a assuntos propostos no último encontro de junho, bem como a temas que surgiram durante as férias de julho. Foram tópicos discutidos:

  • Abaixo-assinado sobre o assassinato da violonista Mayara Amaral
  • Convite do Alexandre Zamith para performance-homenagem à mesma
  • Organização da rede
  • Convite do Thiago Cury para a Sonora participar, com ele, do edital Proac de 2017

Abaixo-assinado

Foi discutida a relevância de se fazer um abaixo-assinado separadamente ao da ANPPOM, já que, enquanto aquela tem acesso a direcionar seu documento para outras instituições de ensino ou até do âmbito jurídico, a rede Sonora não teria as mesmas condições.

Assim sendo, decidiu-se fazer uma fala na plenária do congresso da ANPPOM, esclarecendo que a Sonora foi convidada para fazer o abaixo-assinado juntamente com a associação, mas divergiu em torno do termo feminicídio.

O texto originalmente confeccionado e aprovado pela Sonora será lido no tempo oferecido pelo Prof. Zamith para uma performance-homenagem-manifesto durante o congresso da ANPPOM, justamente quando Mayara faria uma performance sobre seu trabalho a respeito das compositoras de violão.

Convite do Prof. Zamith para performance-homenagem-manifesto a Mayara Amaral

Em relação ao convite feito à Sonora para fazer uma performance em homenagem e/ou manifesto pelo assassinato da violonista Mayara Amaral, foi decidido realizar uma intervenção pré-gravada e processada com as vozes das pessoas da lista interessadas em assinar o abaixo-assinado originalmente proposto pela Sonora. Cada gravação poderá ter até 1 minuto, em que as pessoas poderão externar sua consternação e/ou indignação pelo terrível ocorrido. O título da intervenção será o sugerido pela irmã de Mayara em texto previamente publicado no site da Sonora: “Que sua partida não seja silêncio”.

Foi feita uma chamada na lista para esta intervenção. As contribuições deverão ser enviadas em drive, arquivo wav, até o dia 14/8 por e-mail. Isabel se ofereceu para processar as gravações, com a ajuda da rede. O endereço a ser enviado o material é o link do google drive criado nesta reunião para este fim. Há abertura para sugestões e ideias em torno do tema. Foi feito um convite para que pessoas interessadas se envolvam também na fase do processamento das vozes, que pode ser realizada antecipadamente ou em tempo real.

Organização da rede

Em vista do pequeno número de pessoas presentes à reunião de hoje, o tema “organização da rede” foi mais uma vez adiado. Foi enviado um convite à lista para quem puder participar da próxima reunião, chamando atenção para a urgência de tratarmos o assunto tantas vezes pleiteado, sem mais adiamentos.

Convite do Thiago Cury

Em relação ao convite enviado à Sonora por Thiago Cury – para gravar um CD com obras de compositoras da rede a serem selecionadas mediante edital para participar do Proac 2017 -, foi considerado que o prazo limite (uma semana) é muito escasso para realizar uma proposta a contento da rede.

Próxima reunião

  • Organização da rede: formas de participação, vínculos institucionais, canais de comunicação, etc

 

Quem é Mayara Amaral?

por Pauliane Amaral [1]

Minha irmã caçula, mulher, violonista com mestrado pela UFG e um dissertação incrível sobre mulheres compositoras para violão. Desde ontem Mayara Amaral também é vítima de um crime que parece cada vez mais banal na nossa sociedade: o FEMINICIDIO. Crime de ódio contra as mulheres, contra um gênero considerado frágil e, para alguns, inferior e digno de ter sua vida tirada apenas por ser jovem, talentosa, bonita… por ser mulher.

Em nenhuma matéria na imprensa vi essa palavra – feminicídio – talvez porque seja difícil para uma sociedade ter a consciência de que mais uma vez falhou e uma mulher, uma jovem professora de música de 27 anos, foi outra vítima da barbárie de homens que não podem nem serem considerados humanos. Foram três, três homens contra uma jovem mulher.

Um deles, Luis Alberto Bastos Barbosa, 29 anos, por quem ela estava cegamente apaixonada, atraiu-a para um motel, levando consigo um martelo na mochila. Lá, ele encontrou um de seus comparsas.

Em uma das matérias que noticiaram, o crime os suspeitos dizem que mantiveram relações sexuais com minha irmã com o consentimento dela. Para que o martelo então, se era consentido?

Estranhamente, nenhuma das matérias aparece a palavra ESTUPRO, apesar de todas as evidências.

Às vezes tenho a sensação de que setores da imprensa estão tomando como verdade a palavra desses assassinos. O tratamento que dão ao caso me indigna profundamente.

Quando escrevem que Mayara era a “mulher achada carbonizada” que foi ensaiar com a banda, ela está em uma foto como uma menina. Quando a suspeita envolvia “namorado” hiper-sexualizam a imagem dela. Quando a notícia fala que a cena do crime é um motel, minha irmã aparece vulnerável, molhada na praia.

Quando falam da inspiração de Mayara, associam-na com a história do pai e avô e a foto muda: é ela com o violão, porém com sua face cortada. Esse tipo de tratamento não representa quem minha irmã foi. Isso é desumanização. Por favor, tenham cuidado, colegas jornalistas.

Para nossa tristeza, grande parte das notícias dão bastante voz aos assassinos e fazem coro à falsa ideia de que os acusados só queriam roubar um carro. Um carro que foi vendido por mil reais. Mil reais. Um Gol quadrado, ano 1992. Se eles quisessem só roubá-la, não precisariam atraí-la para um motel.

Um dos assassinos, Luís, de família rica, vai tentar se livrar de uma condenação alegando privação momentânea dos sentidos por conta de uso de drogas. Não bastando matar a minha irmã, da forma que fizeram, agora querem destruir sua reputação. Eis a versão do monstro: minha irmã consentiu em ser violada por eles, elas decidiram roubá-la, ela reagiu fisicamente e eles, sob o efeito de drogas, golpearam-na com o martelo – e ela morreu por acidente. Pela memória da minha irmã, e pela de outras mulheres que passaram por esta mesma violência, não propaguem essa mentira! Confio que o Ministério Público não aceitará esta narrativa covarde, e peço a solidariedade e vigilância de todos para que a justiça seja feita.

Na delegacia disseram à minha mãe que uma outra jovem já havia registrado uma denúncia contra Luís por tentativa de abuso sexual… Investiguem! Se essa informação proceder, este é mais um crime pelo qual ele deve responder. E uma prova de como a justiça tem tratado as queixas feitas por nós, mulheres. Se naquela ocasião ele tivesse sido punido exemplarmente, talvez minha irmã não tivesse sofrido este destino.

Foi tudo premeditado: ela foi estuprada por dois desumanos. E em seguida, ela sofreu um homicídio qualificado: por motivos torpes, sem chance de defesa, por meio cruel, em emboscada, contra uma mulher que tinha uma relação afetiva com um dos assassinos. E só então levaram seus poucos pertences. Parem de tentar qualificar o caso como um roubo seguido de morte (latrocínio), como se fosse o roubo a motivação maior dessa barbárie!

O terceiro comparsa – não menos monstruoso – ajudou a levar o corpo da minha irmã para um lugar ermo, e lá atearam fogo nela, como se a brutalidade das marteladas no crânio já não fosse crueldade demais. Minha irmã foi encontrada com o corpo ainda em chamas, apenas de calcinha e uma de suas mãos foi a única parte de seu corpo que sobrou para que meu pai fizesse o reconhecimento no IML. “Parece que ela fazia uma nota com os dedos”, disse meu pai pelo telefone.

A confirmação veio logo depois, com o resultado do exame de DNA. Era ela mesmo e eu gritei um choro sufocado.

Eu vou dedicar o meu luto à memória da minha irmã, e a não permitir que ela seja vilipendiada pela versão imunda de seus algozes. Como tantas outras vítimas de violência, a Mayara merece JUSTIÇA – não que isso vá diminuir nossa dor, mas porque só isso pode ajudar a curar uma sociedade doente, e a proteger outras mulheres do mesmo destino.

#niunamenos #nenhumaamenos

 

[1] Texto publicado por Pauliane Amaral em seu perfil no FB.

Pela Memória de Mayara Amaral, pelas vidas das mulheres na música e no mundo: #NenhumaAMenos

por Rede Sonora no Portal Catarinas – texto escrito por Camila Zerbinatti

É com profundo pesar que nós, da Rede Sonora – músicas e feminismos, escrevemos esse texto pela memória de Mayara Amaral, violonista, pesquisadora e professora de música. Escrevemos pelas vidas das mulheres na música e no mundo todo. Lamentavelmente Mayara Amaral, 27 anos, foi brutalmente assassinada, na noite da última segunda-feira (26), em Campo Grande/MS, em um crime que contou com a participação central de outro músico – um baterista que já tinha tocado e trabalhado com Mayara e que de acordo com as notícias locais, tinha um relacionamento com ela.

À família e às/aos amigas/os e conhecidas/os de Mayara, expressamos nossos sentimentos e nossa solidariedade. À essas pessoas pedimos desculpas e licença para falar do que aconteceu com Mayara nesse texto que chega em um momento tão grave e de tão indizível dor. Para vocês, nesse momento, dedicamos nossa total e irrestrita solidariedade, nosso apoio e nossas condolências – estamos com vocês.

(…)

Ler texto na íntegra

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Leia também:

Quem é Mayara Amaral?, por Pauliane Amaral

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Mais sobre Mayara Amaral:

Canal do Youtube

Dissertação de mestrado: A mulher compositora e o violão na década de 1970: vertentes analíticas e contextualização histórico-­estilística