Ata da 13ª Reunião (06/06/2016) Série Visões com Rosane Borges

Série Visões com Rosane Borges*:  “Imagem, Imaginário e Representações da Mulher Negra”

  • Rosane Borges iniciou o encontro contando que ingressou no Movimento Negro desde cedo, percebendo de imediato as questões sexistas.
  • Para ilustrar os números do racismo e do sexismo no Brasil, citou que o IDH do país o coloca em 79/80º lugar no panorama mundial. Se considerada somente a população branca, este IDH sobe para a 38ª posição, similar à de países com alto índice de desenvolvimento. Já se considerada somente a população negra, o índice cai para o 100º lugar. E piora quantitativamente se considerada somente a população feminina negra.
  • O que isto tem a ver com a imagem da mulher negra, principalmente na mídia? O que esta imagem tem a ver com o mundo da música?
  • Os papeis do homem e da mulher negra na música erudita é praticamente nulo. Sua atuação fica restrita ao âmbito da música popular, do samba, da capoeira e de outras manifestações. Estas não são menores, mas a restrição às outras esferas é injusta e cria um imaginário de que estas pessoas são limitadas.
  • Há uma fração da sociedade que não se vê como racista, mas não questiona a realidade. Ninguém se espanta com a falta de negros e negras na medicina, odontologia ou advocacia. As políticas de representação determinam quais posições negros e negras devem ocupar. Desde cedo aprende-se o que é o “cabelo ruim”, e que brancos e negros têm valores diferenciados.
  • Política de representação é o papel que cidadãos assumem de acordo com uma “previsão”. Há a representação jurídica, teatral e política. Alguém representa um outro alguém para uma função determinada.
  • Rosane cita, por exemplo, um comercial de margarina. A margarina é um produto barato. Não precisa ser uma família de classe média alta para comprar, mas a propaganda mostra pessoas brancas “caucasianas”, um casal heterossexual, um cachorro “Golden” e uma mesa fartíssima. Portanto, o objetivo não é vender margarina, mas sim uma imagem do que é ser feliz, do que todos gostariam de ser e ter e do que devemos lutar para conquistar. A mensagem é clara e define os valores que devem ser perpetuados.
  • A população negra significa 51% do país. Só num país como o Brasil as pessoas não se questionam por que brancos podem passar valores à totalidade da população e negros não. Como a propaganda da margarina.
  • O poder da representação diz onde as pessoas podem estar ou não. Os que não podem estar são “invisíveis”. A ordem discursiva estabelecida é hierárquica. Ser visível é ganhar existência.
  • Rosane diz que é preciso implodir o imaginário. Não basta ter boa intenção. É preciso abrir mão do privilégio de ser branco. É preciso abrir mão do privilégio de ser homem. É preciso dar um passo atrás, mudar as normas que atribuem reconhecimentos diferenciados.
  • Sobre o negro há um aprisionamento de imagem. Esta imagem antevê uma representação do que seria ser negro.
  • As pessoas não se comovem pelos negros. Do ponto de vista da visibilidade, negros, LGBT, e outras minorias não são consideradas humanas. O número de mortes de jovens negros não diz respeito à comunidade em geral, não aparece nos noticiários e não comove como deveria.
  • Como mudar esta realidade? Rosane propõe políticas de ação para criar contra-representações. Como contratar técnicos negros para times de futebol, por exemplo. Se o futebol está “no sangue do negro” por que os negros não podem ser técnicos? Este tipo de postura poderia mudar o cenário cotidiano.
  • Finalmente, no campo da música Rosane aconselha a pesquisa das raízes da música sul-americana e mesmo da europeia, onde há vários indícios da passagem de negros e negras. Também não se pode imaginar os EUA sem negros, sem o jazz, entre outros estilos. O tango tem raízes negras. Há diversos instrumentos também, não só de percussão.

*Rosane Borges é Jornalista, Mestre, Doutora e Pós-Doutoranda no Depto. de Jornalismo da ECA-USP. Integra a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra (OAB-SP), a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-SP) e o Conselho Nacional de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (CNPIR) da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial). Possui diversos livros publicados, entre eles: Jornal: da forma ao discurso (2002), Rádio: a arte de falar e ouvir (2003) e Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004).

 

Planejamento da próxima reunião – interna – dia 13/06/2016

  • Rosane Borges recomendou a leitura do texto “A partilha do sensível”.
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