Visões – “Imagem, imaginário e representações da mulher negra”, com Rosane Borges (Texto)

Captura de Tela 2016-06-08 às 23.19.27No dia 06/06/2016 a rede Sonora recebeu, como convidada da série Visões, a jornalista e pesquisadora Rosane Borges. Rosane é Mestre, Doutora e Pós-Doutoranda no Departamento de Jornalismo da ECA-USP, integra a Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra (OAB-SP), a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-SP) e o Conselho Nacional de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (CNPIR) da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).

Além de organizadora e coautora do livro “Mídia e Racismo”(2012), no qual apresenta um capítulo dedicado à discussão da imagem da mulher negra na mídia, possui diversos livros publicados, tais como “Jornal: da forma ao discurso” (2002), “Rádio: a arte de falar e ouvir” (2003) e “Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro” (2004). No encontro com a rede Sonora, Rosane falou sobre um pouco de tudo isso. Contou sua trajetória rumo à construção da própria imagem como cidadã negra num país marcado pela colonização escravocrata, e da luta que assume, dia após dia, para mudar os paradigmas de representação da nossa sociedade. Não é a toa que ela integra todas as comissões citadas, atua como professora de comunicação e jornalismo e escreve no blog da revista Boitempo, entre outras publicações.

Rosane Borges ingressou no Movimento Negro bem jovem. Neste ambiente percebeu que, além das questões racistas, havia mais um obstáculo a transpor, pelo qual haveria de militar: as questões sexistas. Como exemplo, a jornalista aponta os diferentes índices de desenvolvimento humano presentes no Brasil se consideramos a população segundo a raça e o sexo: “Enfocando todo o povo brasileiro, o país fica em 79/80º lugar no panorama mundial. Se for considerada somente a população branca, este IDH sobe para a 38ª posição, similar à de países com alto índice de desenvolvimento. Se considerada somente a população negra, este índice cai para o 100º lugar. E piora muito se olharmos a população feminina negra. Isto mostra a enorme desigualdade econômica, intimamente relacionada ao racismo e ao sexismo”.

Captura de Tela 2016-06-08 às 23.56.39Estas questões estão relacionadas às políticas de representação. Política de representação é o papel que cidadãos assumem de acordo com uma “previsão”. Há a representação jurídica, teatral e política. Alguém representa um outro alguém para uma função determinada.

“Por exemplo, um comercial de margarina. A margarina é um produto barato, não precisa ser uma família de classe média alta para comprar. No entanto, as propagandas mostram pessoas brancas padrão norte europeu, casais heterossexuais, cachorros da raça “Golden” mesas fartíssimas. De onde se pode concluir que o objetivo não é vender margarina, mas sim impor uma imagem do que é ser feliz, do que todos gostariam de ser e ter e do que devemos lutar para conquistar”.

Rosane observa que a população negra significa 51% do Brasil. Espantosamente, a maioria das pessoas não se questiona por que brancos podem passar valores à totalidade da população e negros não. Como a propaganda da margarina. Há uma fração da sociedade que não se vê como racista, não quer o racismo mas não questiona a realidade. Noções como “cabelo ruim” e valores diferenciados entre brancos e negros são assimilados todo o tempo. Isto tem a ver com as políticas de representação.

O poder da representação diz onde as pessoas podem estar ou não. Os que não podem estar são “invisíveis”. A ordem discursiva estabelecida é hierárquica. Ser visível é ganhar existência.

“No campo da música, a mutilação da cidadania é semelhante. O papel do homem e da mulher negra na música erudita, por exemplo, é pratica

mente nulo. A população negra fica restrita ao âmbito do que é considerado popular, ao samba, à capoeira e outras manifestações. Estas não são menores, mas a restrição às outras esferas é injusta e cria um imaginário de que as pessoas negras são limitadas”.

Ao final da conversa, Rosane Borges se definiu como uma pessoa de discurso pessimista, mas de ações otimistas. Ela enxerga os avanços e conquistas obtidas pelos coletivos e movimentos negros, assim como acredita em iniciativas de grupos como a rede Sonora.

Para ela, políticas de ação podem criar contra-representações, como contratar técnicos negros para times de futebol, por exemplo. Se o futebol está “no sangue do negro” por que os negros não podem ser técnicos? Este tipo de postura pode e deve mudar o cenário cotidiano.

 

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